Tudo o Que Sempre Quis || Cap.17 || Pt.1


«Que a felicidade invada as nossas vidas
todos os dias»

Estava um belo final de tarde de Agosto, com um sol deslumbrante e um céu azul sem qualquer nuvem no horizonte, Salvador saiu para a varanda do quarto apertando o nó da gravata, fechou os olhos, respirou fundo e deixou-se embalar pelo vaivém das ondas. Dentro de água um surfista brincava na crista de uma onda e, a alguns metros de distância, viu uma rapariga caminhar pela areia com a prancha debaixo do braço. Por momentos sentiu um dejá vú e sorriu ao recordar o momento em que conhecera Sara naquela mesma praia e em como ela o fascinara desde o início. Parecia ter sido à uma vida atrás e não a apenas a alguns anos, em que tanta coisa aconteceu, a vida aconteceu.
Debruçou-se no corrimão e deixou-se ficar a observar a cena que se desenrolava dentro de água, sorrindo para si próprio. Aqueles dois bem poderiam ser ele e Sara, a forma como dominavam a prancha, quase podia adivinhar o surfista embasbacado enquanto a rapariga surfava debaixo do seu nariz com tamanha graciosidade. Ele mesmo o tinha feito com Sara, certo? Era impossível desprender os olhos dela enquanto deslizava pelas ondas, por cima delas, dentro delas.
- Papá, papá! – Uma voz vinda do quarto interrompeu-lhe os pensamentos. – A mamã diz que estás atrasado.
- A tua mamã é doida. - Pegou em Inês ao colo, recordando a primeira vez que o fizera e no quanto ela crescera desde então. - Que achas? Estou bonito?
- Muito! – Afirmou, com um sorriso inocente, deslizando a mão pela gravata.
- Também estás linda, princesa. – Admitiu, deslumbrado pela menina que tornara sua há três anos atrás. Inês vestia um vestido azul céu, a condizer com os olhos que herdara da mãe. O surfista apertou-a nos braços como se tivesse receio que lha tirassem de um momento para o outro.
- Olha! Surfistas! – Inês aprendera a adorar a água e o Surf de tanto ver a mãe e Salvador em cima da prancha. – Um dia também vou surfar como tu e a mamã.
- Claro que vais! – Atirou-a ao ar como costumava fazer quando ela era mais pequena, e mesmo com o passar dos anos, Inês continuava a adorar que ele fizesse isso com ela.

Enquanto eles partilhavam gargalhadas, Sara entrara no quarto que partilhava com ele, depois de alguns minutos entre portas a assistir a toda aquela cena de ternura entre ambos. Agora sim, vivia sem receio que o pai biológico da filha aparecesse e as magoasse. Desde que meses depois de a trazer para viver com ela, Nelson fora intimidado por Salvador, Lucas e Martim, nunca mais dera notícias nem aparecera inesperadamente. Nunca quisera saber de Inês mas, felizmente, a menina tão pouco se lembrava dele sendo que o único pai que conhecia era Salvador, era com ele que brincava, era a ele que amava. Quando crescesse, saberia toda a verdade, de onde tinha vindo e quem a tinha trazido ao mundo mas tinha a certeza que para a filha nada mudaria.
- Bem me parecia. Estamos atrasados meninos! – Sara colocou as mãos na cintura, bateu o pé e fingiu-se chateada.
-Ups! – Murmurou Salvador, junto aos cabelos encaracolados de Inês.
- Vou buscar a caixinha das alianças mamã. – Declarou, decidida.

Sara acercou-se de Salvador que a encaminhou para a varanda, apontando para os dois surfistas dentro de água.
- Poderíamos ser nós. – Disse, um tanto emotiva.
- Parece mentira tudo o que aconteceu desde aquele dia em que te conheci. Fiquei logo doido por ti mal entraste dentro de água. – Admitiu, corando.
- Tenho de confessar que quando te foste embora arrependi-me de não ter ido atrás de ti.
- Encontrámo-nos outras vezes, depois desse dia.
- Sim. Mas naquele primeiro dia, talvez devesse ter feito mais alguma coisa. – Colocou uma madeixa de cabelo atrás da orelha. – Valias a pena Salvador. Ainda vales, claro. Na altura estava escaldada com os rapazes, achava que eram todos iguais mas tu eras diferente. Havia algo em ti que me fazia sentir bem quando estavas por perto. Eras o meu porto de abrigo. Sempre serás.
Ele sorriu, envergonhado, colocou um braço por cima dos ombros dela e abraçou-a.
- Lembras-te quando me salvas-te? – Perguntou ele, referindo-se ao dia em que quisera desistir de tudo.
- Como poderia esquecer?
- Foste a minha cura, digamos assim. Tu e a Inês foram a minha salvação.
- E tu, meu amor, foste mais do que isso. Nunca desistes-te de mim, mesmo quando não acreditei em ti. Hoje, entendo tudo o que fizeste pela tua irmã, pela tua família. É o que fazes, não serias tu se não o fizesses. – Colocou os braços em volta do pescoço dele. – Agora diz-me, se pudesses mudar alguma coisa desse tempo, mudavas?
Salvador desviou os olhos dos dela, fitou o horizonte e os surfistas que já se tinham cansado das ondas. Sorriu.
- Sinceramente? Não mudava nada. Cada decisão que tomei, cada escolha, cada erro, cada consequência, tudo isso me tornou o que sou hoje. Por muito egoísta que possa ser, o que aconteceu naquela noite trouxe-me aqui, guiou-me para que te encontrasse. Quero acreditar que era esse o nosso destino. E podes crer que até te conhecer nunca acreditei em destino e coisas do género.
- Tinha a esperança que dissesses isso. Também não mudaria nada, nem quando partia sem avisar e sem explicações. Tal como dizes, estava escrito assim. Se tivesse de te perder, já te tinha perdido, acho que agora é para sempre. – Beijou-lhe os lábios suavemente.
- Ainda somos nós. Apesar de tudo o que vivemos nestes anos, ainda somos as mesmas pessoas.
 Sara sorriu.
- Não. Acho que somos ainda melhores.
Envolveram-se num longo beijo apaixonado até que Inês os interrompeu.
- Temos um casamento para ir. – Declarou ele.


Sara tinha razão quando dizia que eram pessoas melhores por terem vivido o que viveram. Todas as escolhas, todos os momentos bons e maus, tudo conspirou para que ficassem juntos e naquele momento, ao olhar por cima do ombro em direção ao seu novo lar soube que tinha tudo o que sempre quis. Talvez até mais do que disso.

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