Tudo o Que Sempre Quis || Cap.17 || Pt.2

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Apenas a algumas ruas de distância, Martim travava uma verdadeira batalha com a gravata. Nunca fora betinho àquele ponto, o mundo de fatos e gravatas era ainda um território inexplorado para ele mas naquele dia, com tamanho esforço, lá teria de ir vestido como um pinguim de braço dado com a sua miúda, como ele lhe chamava. Ainda que Helena já estivesse nos seus 23 anos seria sempre a sua miúda.
- Martim, despacha-te! – Gritou ela, da casa de banho enquanto se maquilhava.
- Bolas! – Resmungou ele. Como se não lhe bastasse a gravata, já tinha os pés a latejar dentro dos sapatos e ainda não tinha saído de casa sequer.
Helena entrara pelo quarto como um furacão e numa questão de segundos recordou como fora difícil conquistar o coração daquela rapariga. Chegara mesmo a servir de alvo na destruição de loiça, anos atrás, naquele mesmo apartamento que Salvador alugara à sua avó, Dª Rosário. Tinha sido uma guerra para que ela se deixasse levar pelo que nutria por ele, tinha sido obrigado a derrubar o seu próprio muro para que pudesse derrubar o dela, ao confessar-lhe que a ex-namorada era o motivo de ele se tornar o mulherengo que em tempos tinha sido. Mas Helena era a sua metade, o seu melhor lado e não podia estar mais satisfeito pelo homem que ela o ajudara a tornar-se desde então.
- Eu ajudo-te. – Declarou ela. – Este não é mesmo o teu mundo pois não, amor?
Martim fez aquele olhar de cachorrinho e sacudiu a cabeça.
- Estes sapatos estão a matar-me aos poucos. – Resmungou.
- Está quieto.- Ralhou ela, dando o nó na gravata.
- Nunca vais deixar de me dar ordens, pois não?
Helena sorriu. – No dia que eu o deixar de fazer, preocupa-te.
-Porquê? Será o dia em que o teu irmão me deixará em alto mar? – Sorriu devagar, recordando o momento em que a conhecera na pizzaria onde trabalhava. Ainda era um mulherengo nato, com uma vasta coleção de mulheres atrás de si. Salvador deixara bem claro que o deixaria em alto mar se magoasse a irmã. Desde então, tornaram-se os melhores amigos e confidentes, mas tinha a certeza que a ameaça se manteria até ao dia em que fosse velho.
- Não sei se depois de tudo seria capaz de te fazer isso. – Confessou. – Pronto, já está.
-Acredita que o teu irmão era bem capaz de cumprir o que prometeu. – Martim arregalou os olhos, fingindo receio, e pegou no casaco.
- Nunca te agradeci. – Disse ela, retendo-o à porta do quarto.
-Pelo quê?
- Por tudo o que fizeste por mim, pelo meu irmão, pelo amigo que foste para ele desde que aqui chegou.
Martim enfiou as mãos nos bolsos e encostou-se à parede.
- O teu irmão salvou-me. Se não fosse ele não seria a pessoa que sou hoje, nunca seria a pessoa por quem te poderias apaixonar, acredita. Devo-lhe muito, e a ti também, por me ajudarem a tornar o que sou hoje.
Helena sorriu mas o sorriso depressa se desvaneceu.
-Já pensaste que se não fosse quase violada naquela noite, o meu irmão nunca chegaria aqui? E eu nunca te teria conhecido.
- Quero acreditar que tinhas de passar por isso, por muito que te possa ter custado. Se estava escrito assim, nada que pudesses ter feito ou os teus irmãos, poderia mudar isso. Se assim tinha de ser, posso dizer que valeu a pena. Tudo. – Pousou-lhe um beijo na testa. – Sei que foi difícil, talvez nunca deixe de ser, mas tenta não pensar nisso. Já passou, querida. Acabou, tudo. Agora só coisas boas estarão por vir.
-Amo-te Martim. Amei o rapaz que eras e amo o homem que és.
- Fico contente que assim seja. – Sorriu. – Mas prefiro que continues a manter a loiça longe da minha cabeça.
Dito isto, ambos soltaram uma gargalhada. Aquele seria sempre o momento épico da relação que mantinham. Houve algumas zangas, alguns amuos mas sempre fizeram as pazes, coisa que parecia impossível aos olhos dos outros que apostavam como se separariam ao primeiro arrufo. Mas tal não acontecera. Mantiveram-se juntos, fiel um ao outro, amando-se cada vez mais e assim continuaria a ser.
O amor que sentiam um pelo outro tinha amadurecido e os planos traçados para o futuro eram mais que muitos, ainda que vivessem um dia de cada vez.
- Miúdo, anda, vamos embora. – Martim pegou em Diogo que se deliciava com os desenhos animados que passavam na TV.
- Temos um casamento à nossa espera. – Disse Helena, fechando a porta atrás de si.
Aquela tinha sido o primeiro apartamento de Salvador quando ali chegara praticamente sem nada após alguns meses a viver dentro da carrinha pão-de-forma. Agora, que ele era proprietário de uma bonita e simples moradia com vista para o mar e com o jardim relvado, aquele era o seu lar e de Martim. António deixara algum dinheiro como herança, e uma parte era destinada aos três netos. Com uma percentagem dessa mesma herança de cada um deles, investiram num negócio de família. Uma nova loja de desporto, mais virada para a vertente do surf que Sara geria orgulhosamente, uma escola onde Salvador e Martim davam aulas de surf e outros desportos náuticos a miúdos e graúdos enquanto Helena geria os passeios subaquáticos. Passava metade do dia dentro de água a lidar com turistas pasmados como se nunca tivessem visto um peixe na vida a não ser dentro do tacho.
Lucas era o único que embora tivesse investido nesse sonho com os irmãos, mantinha-se fora de água. Com o vento a soprar a seu favor, conseguira um espaço abandonado que reconstruira e tornara o seu ateliê onde trabalhava como designer e tratava dos esboços a estampar na linha de peças de roupa com a marca do sonho dos irmãos.
Cada um deles, de uma forma ou de outra, estavam a deixar a sua pegada no mundo, até mesmo Mafalda que começara a preparar-se para subir de posto no hospital.
Todos mereciam tudo de bom que lhes estava a acontecer, nem sequer ficara surpreso quando a mãe finalmente encontrara um novo amor, um amor sincero e verdadeiro e um novo rumo.
- Puto, o que é isso que trazes nos pés? – Perguntou Salvador, reprimindo um sorriso traquina, quando se cruzaram a caminho da praia.
Helena olhou repentinamente para os pés do namorado e soltou uma gargalhada quando todos pensavam que ela certamente iria perder as estribeiras.
- Não aguentava os sapatos. – Confessou Martim envergonhado pelos ténis vermelhos All Star que calçava. 
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