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Fevereiro de 2011 || Fevereiro de 2013

Hoje apetece-me escrever um texto grande. A maioria das pessoas não vai ler, mas não me importo. E quem ler até à última palavra, não me importo com o que dirão ou pensarão.
Simples assim. Este é um desabafo da fase mais complicada, atribulada e de muita luta, de toda a minha vida.
Tive o azar de herdar de um tio afastado, a "doença" de ter o maxilar inferior mais saído que o superior. Até a uma certa idade eu considerava-me "normal" mas enquanto crescia o maxilar de baixo também crescia o que se acentuava cada vez mais, trazendo outros problemas a nível de mastigar a comida etc. Ora, aos 9 anos comecei a minha labuta em dentistas - e eu que nem abria a boca quando ia a um dentista nessa altura - o primeiro aparelho que usei foi, no que chamamos, céu da boca. Dois araminhos estúpidos e horríveis que me feriam a língua e enchiam-me a boca de tal maneira que parecia ter a boca cheia de sucata. Esse tinha a missão de afastar todos os dentes para que mais tarde pudessem ser alinhados de forma correcta.
As primeiras semanas custaram-me tanto. Mal comia. Custava-me a engolir até a saliva, quanto mais. Mas ao fim de poucos dias comecei a ver resultados e isso deu-me força. Depois desse veio outro monte de sucata, também no céu da boca, com a intenção de alargá-lo e criar osso. - Tinha o céu da boca pequeno, com pouco espaço.
Esse foi o pior de todos. Todas as noites, com uma chave de fendas própria, a minha mãe tinha de dar uma volta lá numa peça minúscula, para forçar ainda mais. Doía-me a mim e a ela. Fiquei com a língua numa ferida enorme e comecei a cair, a perder a força a questionar-me "Bolas! Porquê eu?Porque não posso ser normal como os outros miúdos?"
Mas ergui-me.
Vários anos depois eis que finalmente usei o aparelho colorido, e se tinha de passar por aquilo que fosse. Que fixe, tantas cores para escolher e conjugar. Mais uma vez vi resultados, comecei a ver os meus dentinhos chatos a alinharem-se ali tão giros, e ganhei força para continuar. Mas seria assim tão fácil? Claro que não.
Tinha dois dentes - os caninos - a nascer para o nariz, literalmente. Só de me lembrar... Solução? Uma mini- cirurgia. Uns pontinhos. Armamos ali uma geringonça para os trazer cá para fora pela gengiva e ficarem no sítio que lhes pertence e arranca-se dois dos outros já que não tinha espaço para tanto dente.
Pronto. Está bem.
Mas não estava nada bem quando uma peça de soltou e tive de voltar a ser cortada no mesmo sitio. Mais uma vez perdi o chão, o ânimo, a força... já nem queria ouvir ninguém a dizer "Vá, está quase. Força". Caraças, que estava quase. Eu sabia, todos sabiam que não estava assim tão quase.
O tempo passou e um dia prestes a entrar numa aula notei uma coisa na gengiva e pensando que fosse algum resto do lanche voltei a passar com a língua mas aquilo eram duro e não saía... Quando reparei que era um dos dentes fugitivos nem sei se sorri se chorei. Ali estava um deles.
Depois veio o outro e com o tempo, longos meses depois, estavam no sítio a que pertenciam. Andava nas nuvens com o meu sorriso que se alinhava a cada semana.
Começou então os planos para o passo final, a cirurgia que me iria corrigir os maxilares, colocar o superior por cima do inferior. No ínicio não estava assustada, afinal, já tinha passado por tanto e ainda faltava uns meses, talvez mais de um ano para esse passo enorme. Mas o tempo corre à velocidade da luz e quando dei por mim estava prestes a entrar no bloco operatório a tremer que nem varas verdes.
Mas antes disso, como à partida me iriam cortar uns milímetros do maxilar inferior, tive de arrancar os dois cisos que ainda estavam dentro do osso. Teria de ser antes da cirurgia por causa da cicatrização do osso e tudo mais. Mais duas mini cirurgias, mais uns pontinhos, mais umas dores, umas quantas perguntas a Deus "Porquê eu?? Não chega já?"
Os meses passaram-se e a quantas mais consultas com a cirurgiã eu ia, mais assustada eu saía de lá.
Quando chegou o dia, sei que chorei desde casa até Lisboa. Chorei baba e ranho. Implorei à minha mãe para me levar para casa, questionei toda a minha fé, e mais do que nunca perdi tudo. A força, a coragem... Estava tão perto de acabar e eu estava tão assustada. Posso dizer que... Tive medo de morrer. Sim, tive. Apesar de não ser uma cirurgia com muitos riscos, nunca se sabe né? Principalmente quando cometemos o erro de na véspera ir ao Youtube ver operações do género. Foi o meu maior erro.
No hospital, as horas demoravam séculos a passar, e eu já não sabia se me queria vir embora ou acabar com aquilo de uma vez por todas.
Quando me foram buscar para me levar ao bloco operatório, desabei por completo. Entrei em pânico e se pudesse, tinha fugido dali a 20 pés ao mesmo tempo. Uma das coisas que ainda hoje não me esqueço foi que enquanto esperava que me pusessem a soro, antes de entrar no bloco, todo o pânico desapareceu e senti uma calma, uma paz  enorme, ali a pairar sobre mim. Eu sabia que tinha ali o meu anjinho da guarda e só lhe pedia para não me deixar. E não deixou.
Fez-me confusão, todas aquelas luzes, o ambiente de arrepiar... Quando me puseram a máscara da anestesia, lembro-me como se fosse hoje, de estar a olhar para um ponto e antes que pudesse contar de 10 para 8 já via tudo embaciado, tudo a distanciar-se. É uma sensação que ainda hoje me arrepia.
Não sei o que se passou naquelas 3h de cirurgia, apenas sei que acabaram por cortar apenas o maxilar superior e avançar os milímetros necessários, iria facilitar a minha recuperação e resolveria o problema.
E sei também que quando acordei na sala de recobro ouvia uma voz muito distante, como ao fundo do túnel a chamar-me, era a enfermeira e despertar-me. Tinha um relógio na parede em frente e vi as horas passarem das 18h para as 20h com pequenos sonos ao longo do tempo. Estava KO mas lembro-me de ter pensado "Já está. Estou viva"
Nessa noite não tinha sono. Só queria conversar, estava agitada da anestesia, queria comer, estava cheia de fome e até couves comia!!
Antes da cirurgia tinha obrigado a minha mãe a tapar qualquer espelho de casa para quando chegasse não me ver ao espelho, muitas pessoas incham imenso, ficam negras e tudo mais. O engraçado é que na manhã seguinte no hospital fui ao W.C e é claro, o espelho não estava tapado né? Ainda hoje me vem as lágrimas aos olhos quando me lembro desse momento, levantei os olhos lentamente, com medo e quando vi disse "Aaaah. Afinal não está nada de mais". Não fiquei negra, um pouco inchada mas nada de outro mundo. O meu nariz mudou um bocadinho, ficou mais fofinho e depressa me chamavam de "Narizinho".
Tinha uma recuperação pela frente, maior que as outras, mas estava cheia de força, de confiança. Foi muito difícil as primeiras semanas, só podia comer papas, sopa fria, líquidos... emagreci cerca de 3kg no mínimo mas o pior foi ver as outras pessoas a comerem aquilo que eu queria comer e não podia de maneira nenhuma. Quando comecei a comer coisas mais sólidas a minha primeira refeição foi uma fatia de pizza. Levei 2 horas a comer uma mini fatia de pizza, aquecia-a umas 3x porque arrefecia com o tempo que levava a mastigar.
Levei uma luta de 10 anos com aparelhos, dentes, cirurgias... tenho a minha dose e se tivesse de passar por tudo de novo, sei que não teria coragem para isso. Posso dizer que fui ao inferno e voltei.
10 meses depois da cirurgia, com tudo sobre rodas tirei o aparelho das cores da boca de uma vez por todas e fiquei encantada com o meu sorriso novo, ria-me bastante, tirava fotos etc etc.
Não sei como suportei 10 anos de luta. Mas sei que fiquei traumatizada. Sei disso. Nota-se pelos pesadelos todas as noites com dentes, que tenho os dentes a cair, que os parafusos ( sim, fiquei com 4 peças de titânio no maxilar superior e 8 parafusos, não me acusem de parafusos a menos pf!! )  se tinham soltado e tinha o maxilar na mão...coisas nojentas, horrorosas.
Perdi a coragem, a força, 500 mil vezes e 500 mil vezes me ergui.
Passaram-se quase 4 anos desde a cirurgia.

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CONVERSATION

13 comentários :

  1. R: Na verdade será uma lista a longo prazo. Presentes de mim para mim para os próximos 40 anos xD

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  2. Opa, tens tanta coragem! Eu comecei em Maio a minha dose e como fui tarde já só posso usar o normal e "colorido" e rezar que o efeito seja o mesmo que seria se tivesse começado há uns anos atrás e tivesse usado o do céu da boca...
    Gostei muito das fotos e da história, e embora seja algo de "aflição" para ti, só tens que pensar que já passou e já esta linda e sem problemas agora :)

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    1. Eu tbm fui um pouco tarde. Deveria ter começado aos 6 anos, talvez aliviasse algumas dores e fosse mais fácil mas teria sempre de ser operada. Mas na altura não houve hipótese de começar mais cedo :/
      Muito obrigado pelas palavras e muita força sim? Beijinhos.

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  3. Realmente passaste por muito. Situações mesmo complicadas. Mas admiro a tua força e o facto de nunca teres desistido. Fico contente por gostares do teu "novo" sorriso. E tens um sorriso muito bonito! Por tudo o que passaste mereces ter o melhor sorriso do mundo!

    Beijinho muito grande!

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  4. Jesus, isso é que foi ter força de vontade.
    O que importa é que agora tens o teu sorriso lindo! :)

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    1. Se tivesse de passar por tudo de novo sei que não iria conseguir.:s

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  5. Primeiro que tudo... Muitos parabéns pela tua força. Acho que no teu lugar não conseguia suportar nem metade. Ler isto fez-me sentir picuinhas por ter tido medo de, simplesmente, arrancar os dentes do ciso tendo em conta que nem pontos tive que levar. Ler isto fez-me ter a certeza que és uma mulher cheia de força. Nunca percas esse sorriso. Bem que o mereces!! :)

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    1. Se tivesse de passar por tudo de novo, não teria coragem para isso:/
      Obrigado pelas tuas palavras:) Beijinhos

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  6. Olá :)
    Eu também tenho prognatismo que também herdei dos meus bisa ou tetravós. Uma chatice. Desde pequena que eu dizia que era diferente mas os meus pais não ligavam nem mesmo quando os dentistas diziam "esta menina ainda vai ter de ser operada lá mais para a frente". Pois bem, com o crescimento tudo ficou pior não é? Dentes tortos, dentes a nascer onde não devem, maxilar inferior mais saído que o superior e o sorriso? Esse? Nem se via. Criei uma defesa que era meter a mão sempre à frente da boca de cada vez que me queria rir e sorria apenas de boca fechada. Aos 18 anos, comecei o meu tratamento. Não foi necessário alargar a boca nem nada disso. Comecei por arrancar um dente do sizo e depois acorbardei-me. Estive mesmo mal. Quando dei conta, já tinha 21 anos e ainda nem tinha tirado os restantes três dentes do sizo nem colocado aparelho mas foi aos 21 que tratei de tudo. O poblema foi arranjar um médico pois eu corri todos os dentistas e todos me diziam que não tratavam de mim porque o meu caso era especial até que encontrei o meu anjo da guarda. A minha dentista. Aparelho colocado, dores vividas, uma quantidade de feridas mas sempre encarei isto como uma fase e nunca perdi a força. Só quero ser operada e ficar bem. Estou na recta final e agora é só esperar para eu entre na lista de espera e seja chamada. Estou ansiosa e com receio de me ver pós-operatório e tudo o que vou viver na recuperação mas estou confiante de que vou ultrapassar tudo. Eu também vou escrevendo num blogue esta minha aventura. Se quiseres ir dar uma vista de olhos está aqui: http://historiaprognatica.blogspot.com/

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    1. Olá querida Cátia. Li cada palavra tua sobre o teu problema e desejo-te tudo de bom. Que tudo corra pelo melhor e rapidamente para te veres livre de tudo isso. Não é fácil, não. Na recuperação é provável que desanimes, que te deixes ir a abaixo porque é uma recuperação um pouco lenta e tens de ter paciência. Ajuda ter alguém com quem conversar, eu não conhecia ninguém que tinha feito a operação que fiz e isso ainda me fez ficar mais assustada. Felizmente, tenho seguro de saúde e foi tudo muito rápido na lista de espera. Vou ver o teu blog e qualquer coisa que precises, por favor não hesites, sim? Não publicarei os comentários se eventualmente entrares em contacto comigo, se preferires.
      Muita força querida! Beijinhos

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