Dentes de Ouro || Fase 5


Tantos meses depois, decidi que de hoje não passava, tinha de trazer este post e dar continuidade à minha saga de vida de dentistas, aparelhos e afins. Sei que metade das pessoas não se interessa com este assunto, mas nunca se sabe se não poderei até ajudar alguém na mesma situação que eu estive?


Esta foi a fase mais dolorosa de todo o processo. Quando comecei nestas andanças ainda faltava imenso tempo até ter idade para ser operada, mas o tempo passou tão rápido que quando dei por mim já estava a ouvir a dentista dizer que estava na altura de começar os preparativos.
Acho que nunca tive tanto medo na minha vida. Já imaginava mil motivos para a operação correr mal e eu morrer na mesa de operações. Eu sei que soa a exagero mas estava mesmo assustada, ainda mais caí na patetice de dias antes ir ao youtube ver uns vídeos de cirurgias parecidas. Tive pesadelos, claro. e só serviu para me enervar ainda mais.
Foi numas férias da Páscoa. Tinha data marcada já a alguns meses e só rezava que não fosse ao dia 26, visto que tenho algumas histórias com esse número (este ano, depois do acidente a 26 de Fevereiro decidi contrariar o mal do número e decidi torná-lo o meu número de sorte.), não foi a 26 mas foi a 29. 3 dias depois de fazer 6 anos que o meu avô materno faleceu.
Antes de sair de casa obriguei a minha mãe a tapar todos os espelhos em casa, podia acontecer ficar super inchada e cheia de pisadelas no rosto, não queria ver, simples assim.
Tive mais de 24h no total sem comer nada de nada. Só no dia seguinte à cirurgia é que comi 2 epás e foi com isso no estômago que vim para casa. Mas antes disso...
Chorei. Chorei muito. Em casa, no carro, no hospital... ainda por cima tudo se atrasou e tive mais horas à espera o que só aumentou todo o stress. Quando já depois da hora de almoço me entregaram aquela roupa esquisita para vestir, implorei à minha mãe para me levar de volta a casa. Eu estava mesmo na ideia que podia não voltar, não sei porquê.Nunca tinha sido operada a nada, sem contar com as pequenas cirurgias no dentista. Estava em pânico.  Antes de me levarem disse-lhe para o meu pai quando chegasse a casa ler a carta que tinha deixado na secretária.
Não me perguntem o que me deu, já devem ter percebido.
Levaram-me na maca, corredores e mais corredores, andares para cima ou para baixo - não me lembro - até que me deixaram à porta do bloco, à espera que me colocassem o soro (e aquela gaja bruta magoou-me para caraças!) Não sei explicar mas enquanto estive sozinha só pedia ao meu avô que cuidasse de mim, que me protegesse... de repente senti uma paz tão grande a percorrer o meu corpo. Já não tinha mais medo, já não estava nervosa mas sim ansiosa para que tudo terminasse.

A última coisa que me lembro é de ter muito frio. Das luzes enormes e brilhantes por cima da minha cabeça. Fixei uma janela e quando me mandaram contar de 10 até 0 nem sei se cheguei ao 8 porque comecei a ver tudo a desfocar.
Não sei quantas horas levou, sei que foi menos que o esperado porque decidiram outra estratégia; em vez de cortarem 2mm  o maxilar de baixo para o recuar, e puxar o da frente 4 mm decidiram mexer só no de cima e avançar 6mm.  Para quem não sabe, desde pequena que tinha o maxilar inferior mais saído que o de cima.  Tanta merda por uns mm's, já viram bem a minha cruz?
Se a última memória que tenho é das luzes, a primeira foi de ouvir uma voz ao fundo do túnel, muito distante, a chamar o meu nome. Quando acordei da anestesia tinha o médico e uma enfermeira a olhar para mim. Já estava na sala de recobro, sentia-me exausta, estava bem tapadinha e com 2 sacos de gelo um em cada bochecha. A primeira coisa que pensei foi "Já está. E sobrevivi".

O relógio que tinha à minha frente mostrou-me as horas entre os espaços de tempo que adormecia e acordava. Só 2h depois é que me levaram para o pé dos meus pais. Se não me engano, a primeira coisa que disseram foi "Aahhh está tão diferente" 6mm pá..6mm que mudou tudo. Sobretudo, a forma como encarei a minha vida depois disso.
A fome era tanta que até couves eu comia naquela hora. Já me apetecia empadão e nem a água que bebia sentia na boca. Fiquei sem sensibilidade no céu da boca durante alguns dias porque tiveram de cortar alguns nervos né...mas poucos dias depois tudo voltou ao normal. Dentro do possível.
Que eu desse por isso, o meu paladar não ficou afectado, mas poderia ter acontecido.

Querem saber o melhor? Lembram-se da saga dos espelhos tapados pela casa? Na manhã seguinte à cirurgia foi ao WC e claro que tinha um espelho de todo o tamanho. Nunca, mesmo nunca, me esquecerei da minha expressão de parva... levantei a cabeça devagarinho com medo do que pudesse ver (mesmo a minha mãe já me ter dito que só estava um pouco inchada),quando vi só disse "aaaah :o Não está nada de mais". Nem sequer fiquei negra, felizmente.

Tinha o maxilar de cima cheio de pontos, mais tarde quando perguntei ao médico quantos tinha levado ele respondeu "Ora agora...sei lá eu..os necessários para segurar".  24h depois da cirurgia tive ordem para ir para casa. Foi uma viagem infernal. Eu que já por natureza fico maldisposta em viagens longas, ainda mais sem me alimentar como deve ser... eu com sensação de vómito e a não poder fazê-lo com medo de soltar os pontos ou deslocar alguma coisa...afinal tinha 4 placas e uns quantos parafusos dentro do maxilar...
Quando cheguei a casa e não aguentei mais, comecei a sangrar do nariz... foi o meu primeiro ataque de pânico. Nessa noite só a toque de uma tigela enorme de sopa fria (isto em Março. Se bem que sopa fria cai mal em qualquer altura do ano), e metade de um comprimido da avó para me acalmar. Só acordei na manhã seguinte, esganadinha de fome...

Andei dias a papas, iogurtes, coisas frias... quando 5 dias depois tive ordem para ir comendo aos poucos coisas mornas, e começar a mastigar..."Mãããeeee quero empadão. Mãããe quero pizza!" Sendo sincera, nesse dia levei mais de 1h para comer uma mini fatia de pizza. Arrefecia, eu aquecia. Arrefecia, eu aquecia... Desesperei. Sim. Algumas vezes foi frustrante ver os outros a comerem e eu ali, horas sem fim para conseguir comer minimamente.

Mas não desisti. Nunca. Questionei muitas vezes porque tinha de ser comigo, o que tinha feito para merecer tudo aquilo...Mas nunca deitei a toalha ao chão.
Eventualmente, com tempo e paciência, melhorei. Um dia de cada vez. Mas admito, estou traumatizada. Estou mesmo. Quase todas as noites sonho com dentes, que o maxilar me cai nas mãos (nojento, eu sei mas não tenho culpa), que me caiem os dentes, etc etc...
Agora, quase 5 anos depois, tenho uma tatuagem nas costelas para me lembrar do fundo do poço onde estive, do que passei e que nunca desisti. Posso cair, mas levanto-me sempre. Stay Strong...Always. 😉

Sobre as fotos; a primeira foi tirada 2 semanas depois da cirurgia. Ainda um pouco inchada, sobretudo no buço e nariz. Acho que só desinchei completamente uns 2 meses depois. A 2a foto foi em Agosto desse mesmo ano, 5 meses depois. Fiquei sempre com a cicatriz no maxilar, dando a impressão de ter um buraco na gengiva, por cima. E para quem se pergunta, sim fui operada com o aparelho na boca. Só o tirei quase 1 ano depois.

No próximo falarei do que veio a seguir, no fim de contas, tinha ganho um sorriso novo. Pela primeira vez na vida tinha um sorriso normal.

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4 comentários :

  1. Nem consigo imaginar aquilo pelo que passaste. Eu usei aparelho mas foi muito simples. Bastou-me arrancar os dentes do ciso (e estava em pânico). Mas ainda bem que correu tudo bem :)

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    1. Também arranquei os de baixo, os de cima ainda os tenho mas não dão sinais de estar para breve. Graças a Deus.

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  2. tal e qual a minha irmã, imagino-a quando leio o que escreves xd

    xoxo

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