Quando o ♥ Não Perdoa | Cap.1_Pt.1


Eva estava preguiçosamente deitada na cama de rede a ler enquanto Simba, a sua cadela labrador de pelo castanho cor de chocolate, ressonava por baixo de si. Apesar de ainda ser apenas inícios de Abril, o calor começava a fazer-se sentir e naquela tarde, depois de um dia atribulado no gabinete de arquitetura de fazer arrancar cabelos a qualquer um, nada lhe apetecia mais do que chegar a casa, trocar de roupa e descansar um par de horas.
De repente ouviu qualquer coisa a restolhar na garagem. Pousou o livro e ficou alerta, mas o barulho que a despertara da leitura, cessara.
- Deve ser algum gato vadio. – Disse para Simba, mas esta nem se incomodou em abrir os olhos quanto mais levantar as orelhas. A cadela era meiga com quem confiava, boa com os outros animais da quinta mas como cão de guarda não servia para nada a não ser para ladrar e fugir de seguida.
A rapariga retomou a leitura, mas de novo ouviu o mesmo barulho e sem dúvida que alguém andava na garagem a remexer fosse no que fosse. Saltou da cama de rede num salto, acordando Simba. Primeiro correu, depois estugou o passo, evitando fazer barulho. Se fosse algum ladrão estava tramada. De que lhe valeria o cabo da vassoura que levava nas mãos em posição de ataque?
Entrou na garagem e quase morria de susto ao ver uma figura masculina.

- Pedro! Que estás aqui a fazer? Não estavas na escola?
- Bolas! A sério? Passei por ti e nem deste por mim? Realmente quando entras no mundo dos livros perdes a noção de tudo. – Resmungou. – Baixa lá essa vassoura.

Eva encostou a vassoura à parede ainda a tentar refazer-se do susto que apanhara por causa do irmão.
-Não te baldaste às aulas, pois não? – Quis saber, colocando as mãos na cintura.
Pedro revirou os olhos.
- Maninha – Pegou-lhe no pulso onde ela trazia o relógio – São quase seis horas, as minhas aulas acabaram às quatro. Ok? - Olhou seriamente para a irmã – Sabes que não me baldo às aulas desde o ensino básico. Este ano faço dezasseis anos, sou um homem agora! E responsável.

Eva riu.
- Pedro, ainda estás a uns meses de fazer anos. Ainda tens muito que crescer. – Beliscou-lhe a bochecha.
- Que seja. – Contrafeito voltou as costas à irmã e retomou as suas buscas, revirando tudo e mais alguma coisa.
- Onde está a Su? Não devias de a ter trazido?
- Ficou a terminar um trabalho, vem com a mãe. – Respondeu Pedro, distraído.
- Que estás a fazer? Se o pai sonha que estás a mexer na tralha dele da pesca é bem capaz de te arrancar as orelhas da cabeça! – Exclamou Eva, retendo-o.

O material de pesca do pai era sagrado, só ele lhe podia tocar. Tal como a mota de cross de Pedro era sagrada para ele. Tinha sido uma invenção do pai deles, juntamente com o rapaz criaram e montaram uma pequena mota de cross com peças de outras motas velhas. Teria sido a forma dos pais o calarem com aquele assunto, sem gastarem uma fortuna numa coisa que ele acabaria por estragar.
Inicialmente, a mãe não achara qualquer piada ao assunto, desagradava-lhe completamente a ideia de ver Pedro em cima de uma mota daquelas. Tanto ele a importunou que acabou por ceder quando lhe prometera não sair da propriedade, que seria apenas para brincar. A verdade é que o rapaz ganhara um amor por aquela motoreta que ninguém esperava. Era limpa cerca de duas vezes por mês, posta a brilhar e mesmo sem grande queda para a escola, Pedro ajeitava-se para a mecânica. Desde há um ano atrás que o pai perdera totalmente o direito de andar na mota dentro da quinta para ir fazer alguma coisa, quanto mais a tocar-lhe no interior da carcaça.

- Ando à procura da chave do kart, não sei onde é que eles a esconderam. – Admitiu ele, referindo-se a mais uma invenção do pai deles, um kart de cross, todo-o-terreno, completamente modificado e cheio de engenhocas manhosas.
- Estás doido! Que achas que vais fazer com o kart? Não te proibiram de andar naquilo sem o pai?
- Eu sei. Mas sabes maninha – Fez aquele olhar traquina, de doçura fingida – Estava meeeesmo a apetecer-me dar uma voltinha.

Eva revirou os olhos.
- E vais continuar com essa vontade até o pai chegar. Não sei onde está a chave e mesmo que soubesse não te diria. Claro. – Piscou-lhe o olho e saiu, seguida por Simba.

Pedro precisava de alguma coisa para fazer, ou melhor, de apanhar ar. Coisas para fazer tinha ele, um monte de folhas para estudar, mas antes disso precisava realmente de clarear as ideias. Queria o kart. Queria desesperadamente o kart. Mas a irmã tinha razão, como quase sempre. Seria mais sensato esperar que o pai chegasse do trabalho, antes que fizesse asneira. Ainda se lembrava daquela vez que ficou de castigo duas semanas sem TV, sem computador exceto para trabalhos da escola e sobretudo, duas semanas sem sequer sonhar com a mota. Porque fora mesmo castigado? Pensou durante um momento.

- Já me lembro! Acho que foi quando andei a fazer rally com o trator.

E como ele se tinha divertido à brava nesse dia, até ao momento que os pais chegaram e lhe fizeram as orelhas arder tanto, tanto, que lhe apetecia arrancá-las.
Suspirou. Que se lixasse o kart.
Fechou o portão e arrastou os pés até ao jardim onde a irmã retomara a sua viciante leitura. Por um segundo, uma ideia travessa passou-lhe pela cabeça; talvez pudesse pregar-lhe um susto de fazê-la cair da cama de rede. Mas ao recordá-la, a alguns anos atrás, após uma cirurgia sem disposição para brincadeiras e do aviso dos pais para ter cuidado o resto da vida para não a magoar com disparates estúpidos, Pedro engoliu em seco.
Atrás de uma árvore ficou a observá-la, ali tão tranquila, tão perdida no seu mundo de devaneios com Simba a roer uma bola velha debaixo de si. Adorava-a. Podia ser mais velha mas era a sua maninha. Aquela que brincara com ele na infância pelo campo, que fazia corridas de bicicleta com ele, sujava as mãos na terra enquanto faziam carros e tratores deslizar por pistas que eles próprios criavam.
Mesmo que pudesse, não trocaria Eva por nenhum irmão rapaz. Porque o faria? Ela própria fora uma maria-rapaz na infância, detestava bonecas e Pedro (juntamente com Susana, mais tarde) fora o seu melhor presente. Eram a companhia um do outro.

Meses mais tarde de a adoção de Pedro ter sido aceite, ainda ele era um bebé, a mãe de Eva descobriu que estava grávida. Tanto tempo depois a tentar em vão, quando menos esperavam, chegou Susana.
Mesmo quando ambos a arreliavam, Eva raramente se zangava. Tinha pedido tanto um irmão ou uma irmã que nem se importava com o resto. Não se importava quando lhe faziam a cabeça em água nem se incomodava por ter de dividir os mimos com eles.

- Mana. – Chamou o rapaz cautelosamente. Quando ela despregou os olhos do livro ele continuou. – Queres ir dar uma volta a cavalo? Tenho uma data de coisas para estudar, mas preciso de apanhar ar antes de mergulhar naquilo de cabeça.

Eva semicerrou os olhos. Não estava com grande disposição para cavalgar mas encarou o irmão e viu que ele estava a ser sincero.
- OK. – Disse. – Mas depois vais estudar, ouviste?
- Sim Sra. comandante! – Exclamou ele, batendo continência.

Dirigiram-se para a cavalariça onde os cavalos de ambos os esperavam. Eva selou a sua égua castanha com uma pequena mancha branca na cabeça, enquanto Pedro fazia o mesmo no seu cavalo. Um belo animal robusto, de pelo totalmente preto que à luz do Sol luzia intensamente.
Caminharam lentamente em silêncio durante alguns instantes, ouvindo-se apenas os passos dos animais na terra.

- Que se passa? – Perguntou Pedro, puxando a irmã dos seus devaneios. – Sim, o que se passa? – Repetiu quando ela franziu o sobrolho.
-Nada. Porque haveria de se passar algo? – Disse, sorrindo.
Ele olhou para a imensidão dos campos.
- Conheço-te melhor do que pensas. Foi aquele tipo outra vez, tenho a certeza.
- Ora essa. Não se passa nada, mano.
O rapaz aproximou-se mais da égua Faísca e puxou-lhe as rédeas, retendo ambas.
- Posso ser mais novo do que tu, não saber metade do que sabes sobre a vida, sobre essa coisa de amor e tudo mais, mas sou teu irmão e sei quando não estás nos teus dias. Tal como sei quando estás empenhada no que estás a ler ou apenas desfolhas páginas sem tomar nota de palavra nenhuma. E era isso que estavas a fazer naquela cama de rede há pouco.
Eva abriu e fechou a boca sem dizer palavra.
- Que achas? O mesmo de sempre. É preciso dizer mais alguma coisa? – Respondeu ela em voz baixa.
- Sim é preciso. É preciso dizer-te que mereces muito mais que aquilo. Até eu com quase dezasseis anos consigo ser mais homem que aquele gajo.

Eva soltou as rédeas de Faísca das mãos do irmão e obrigou a égua a correr o mais rápido que podia. Era verdade. Pedro conseguia ser mais adulto do que o seu namorado Vicente. O irmão não tinha medo de traçar metas e alcançá-las desse por onde desse, mas ao contrário de Vicente, foi assim que ambos foram educados, mas ela não entendia uma coisa. Uma pessoa pode ter uma determinada educação, mas se quiser ser diferente, melhor, se quiser mudar, isso é desculpa para não o fazer? Ou é apenas uma questão de princípios, de força de vontade?
Pedro tinha razão; ela merecia mais, só não sabia o que fazer à sua vida naquele instante.

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6 comentários :

  1. Vou ficar à espera do próximo capítulo :p

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  2. Este capítulo ficou muito lindo. Eu sei que é texto, mas contradizendo, o melhor é perdoar nem que seja só para ficarmos bem connosco mesmos :) fico à espera do próximo.

    Com muito carinho,

    Diamonds In The Sky, Daniela Silva

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  3. Adorei! E fiquei bastante curiosa :)

    r: Ele é incrível. A entrevista reforçou isso mesmo

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