Quando o ♥ Não Perdoa | Cap.1_Pt.2




Só quando o sol começou a esconder-se por entre as árvores Eva regressou a casa montada na égua. Tinha perdido a noção das horas quando se sentara à sombra de um salgueiro à beira do lago onde Faísca aproveitou para deambular por ali, a pastar.
Subiu os degraus do alpendre batendo com os pés para sacudir a terra que eventualmente trazia na sola dos ténis e deixou-se ficar por breves momentos a observar o irmão totalmente perdido no monte de folhas que tinha para estudar. O seu bom senso dizia-lhe que devia uma explicação a Pedro por o ter deixado a falar sozinho naquela tarde.
Cruzou os braços.

- Hmm… O pai já chegou. – Disse. – Não querias ir andar no kart?
Pedro tirou os olhos das folhas. - Eu sei, vi-o chegar, mas acho que ficará para outro dia. Estou realmente assustado com tudo isto que tenho para estudar. – Disse, sendo sincero.
- Biologia? – Quis saber Eva, dando uma olhadela ao que ele estava a escrever.
O irmão assentiu.
- Sério? É a tua disciplina preferida, passas no teste na boa, de certeza. – Disse ela, confiante das capacidades do irmão e sobretudo, sabia bem o quanto ele adorava aquela matéria.
- Mesmo assim, é muito para estudar. – Pousou a caneta em cima da mesa de madeira do alpendre e afundou-se na cadeira. – Nem sabes a sorte que tens de já estares safa de testes e desta vida de estudante.
Eva aproximou-se dele, despenteando-lhe o cabelo castanho.
- Dizes isso agora maninho! Vais sentir saudades destes tempos de escola, acredita.
- Duvido. – Resmungou, escapando das mãos dela. Se havia coisa que ele detestava era que o despenteassem. Mas por pensar nisso, estava na altura de fazer uma visita ao cabeleireiro, aqueles cabelos em volta das orelhas a fazerem-lhe cócegas, começavam a incomodá-lo.
- Quando cresceres, vais entender. – Sussurrou a rapariga, colocando os braços em torno do pescoço do irmão, beijando-lhe a face de seguida.

Durante algum tempo ficaram em silêncio até que a mãe de ambos saiu pela porta a chamá-los.
- Eva. Não sabia que já tinhas regressado. – Disse.
- Olá, mãe. Cheguei à pouco. – Cumprimentou a mãe com dois beijinhos e entrou em casa. – Vou tomar banho, estou esfomeada.

Tomar um duche ao final do dia poderia significar alguma paz de espírito durante cinco minutos. Desligar o cérebro, ficar apenas a sentir a água na pele, mas para Eva era totalmente o oposto. Era durante o duche, enquanto conduzia, ou quando estava prestes a pegar no sono, que a mente dela divagava, pensava em tudo e mais alguma coisa até mesmo naquilo que não queria pensar.
Tudo voltava a Vicente. Quantas vezes se sentira insignificante por causa dele? Na verdade, o que ele fizera realmente por ela, de verdade? Nunca a levou a sair, a jantar fora ou ao cinema. E as poucas vezes que saíam juntos era à custa dela. Era ele que saía com ela e não ela com ele.
Vicente era um miserável, não tinha onde cair morto nem se preocupava realmente muito com isso. Podia não ter um tostão furado e no entanto, Eva preocupava-se mais com isso do que ele próprio.
Pedro tinha razão. Ela merecia mais. Podia não ser a melhor pessoa do mundo mas sabia o que tinha feito em prol daquela relação que agora apenas a magoava, a deixava triste demasiadas vezes.
Podia não saber muito sobre amar, mas tinha a certeza que não deveria ser assim, deveria estar feliz a maior parte do tempo, deveria sentir-se segura com a pessoa com quem estava, mas era mentira.
Não se sentia segura em relação a nada, e não gostava minimamente desse sentimento. Tinha imensos planos para o seu futuro, queria alcançá-los e sabia que não seria com uma pessoa como Vicente, que se acomodava e não insistia em ir mais além.
Recordou os primeiros meses juntos e sentiu saudades daquilo que eram antigamente, então percebeu que desde sempre fora estúpida em acreditar nas promessas que ele fazia, nos planos que ele traçava sem intenção de os cumprir ou apenas esperava que se realizassem por si só. Eva era independente, Vicente era dependente, demais até.

Saiu debaixo do chuveiro, enrolou uma toalha na cabeça e vestiu-se. Quando entrou no quarto assustou-se com Pedro e Susana sentados na borda da cama de braços cruzados. Estava a tornar-se um hábito o irmão pregar-lhe sustos naquele dia.

- Que susto! – Exclamou, levando a mão ao peito.
- Bolas. Metemos assim tanto medo? – Brincou Susana.
- Que gracinha. – Resmungou a rapariga, com um sorriso irónico. – Que estão aqui a fazer? Isto é alguma intervenção em grupo?
- Acabar a conversa que começámos hoje à tarde. – Disse Pedro
- E eu estou aqui para o ajudar a fazer-te falar. – Atirou Susana.
- Não desistem mesmo, pois não?
- Não mana, não desistimos. Sabes porquê? Porque és nossa irmã e se tiver de arrancar um dente ao teu querido namorado, ou raio que o parta que ele é, farei isso com muito gosto. – Disse o rapaz.
- Pedro. – Sussurrou ela, baixando a cabeça depois de se sentar na cadeira de secretária.

- Eva. – Pedro imitou o tom de voz da irmã, como quem diz “ Queres jogar, vamos jogar”
- O que querem que vos diga, exatamente? - Quis ela saber.
- Achas que alguma vez ele vai mudar? Digo, realmente? – Quis Pedro saber.
- Achas? Claro que não. Diz que sim, mas já viste provas disso? – Quando o irmão abanou negativamente a cabeça ela continuou. – Pois, nem eu.
- Então porque continuas com ele? Porque continuas presa a uma relação que sabes não ter futuro? A uma pessoa que nem sequer sabe o que fazer à sua vida? – Perguntou Susana.
- Sabem, eu sei bem disso tudo, sei que talvez nunca exista futuro para nós… Continuo a tentar vezes sem conta. Mesmo depois de ter aberto os olhos, continuei a tentar, continuei a permitir magoar-me a mim própria e não sei porquê.

- Talvez aches que o que sentes por ele o ajude a mudar. – Arriscou o rapaz.
- Nem eu sei o que sinto por ele, só sei que não é igual ao que sentia. Quando amas mesmo muito uma pessoa e apenas te magoam, esse sentimento começa a desaparecer porque vês que não vale de nada. Amar só por si não chega se não forem os dois a fazer pela relação.
- Sabes o que eu acho? – Susana obrigou-a suavemente a encará-la, brincou com uma madeixa de cabelo que lhe escapara debaixo da toalha presa em volta da cabeça e disse: -Não desistes dele porque não sabes desistir. Nunca soubeste desistir fosse do que fosse, porque haverias de desistir do único amor que tiveste? Nunca desistas, mana. É quem tu és, e é o que faz eu adorar-te tanto. – Sorriu.
A rapariga ficou por momentos a matutar no que a irmã acabara de dizer. Seria realmente isso?
- És como a mãe. – Disse Pedro. – Podem ser magoadas, podem sofrer, mas não sabem desistir, não conseguem dar-se por vencidas. Só queria ter metade da vossa força. – Confessou, começando a sentir as bochechas a arder. Raramente dizia o que sentia, mas quando o fazia, deixava qualquer pessoa de boca aberta.
- Sabes maninho? Nunca pensei que fosses tão meloso. – Brincou Eva, fazendo-lhe cócegas na tentativa de encerrar o assunto por ali. Por muita razão que o irmão tivesse, precisava de pensar, pôr a cabeça em ordem primeiro. Pedro tinha esse efeito quando se fingia de filósofo.
- Oh, vai-te lixar. – Resmungou fugindo pela porta do quarto. Outra coisa que detestava para além que o despenteassem, era que lhe fizessem cócegas. E as irmãs estavam sempre a fazer isso, tal como o avô deles. Sentia-se fraco nas mãos deles, pensou, dramatizando.

Eva deixou-se ficar, perdida de riso até que o telemóvel tocou com um aviso de mensagem. A ideia de ser Vicente deixou-a séria de repente.

De: Íris
 Que dizes almoçarmos amanhã? Estou a dar em doida aqui em casa.

Íris era uma das estagiárias de Verão no gabinete onde Eva trabalhava. Podia dizer até que era o mais próximo de uma melhor amiga que ela tinha. Almoçarem juntas significava uma boa hora de risota e disparates como sempre que estavam juntas.

Para: Íris
Importas-te que leve o palerma do meu irmão? Já tinha combinado almoçar com ele amanhã, a Su não pode.

De: Íris
Na boa. ;)

Eva já esperava isso. Mesmo discretamente, Íris mostrava algum interesse em Pedro embora ele fosse dois anos mais novo, os seus olhos azuis eram qualquer coisa.
O que não esperava era que fosse reciproco da parte dele.

- Pedrooooo! – Gritou enquanto se dirigia para a sala de jantar
- Que fooooooiiii? – Respondeu ele de boca cheia. Já tinha roubado umas quantas batatas fritas da travessa mesmo antes de ser chamado para jantar. Tinha cá um faro para a comida….
- Amanhã vamos almoçar, lembras-te? – Perguntou.
Ele assentiu com a cabeça, não fosse alguma batata escapar-lhe da boca.
- A Íris vai connosco, Ok?
O rapaz engasgou-se de tal maneira que começou a tossir e a ficar mais vermelho que um tomate.
- O quê?? – Perguntou, mais recomposto.
- Quê, nada. Qual o teu problema? Até parece que não estiveste connosco mais vezes.

Claro que tinha estado com elas várias vezes, mas isso foi antes de começar a achar piada à amiga da irmã. Íris completava dezoito anos dali a uns meses, curiosamente, no mesmo mês que ele faria os seus dezasseis anos. Era ainda muito puto para que ela olhasse para ele duas vezes.
Pedro era um quebra corações, ainda que intencionalmente. Na verdade, preferia as motas às raparigas mesmo que as deixasse K.O – sem querer - com os seus olhos azuis-claros, mas Íris era diferente. E sobretudo, era amiga da sua irmã. Estava tramado. Totalmente tramado.

- Aaaaah, acabei de me lembrar que amanhã tenho umas coisas para fazer na hora de almoço. – Mentiu, sentindo o sangue subir-lhe às faces.
- Jogar matraquilhos? – Quis saber a mãe, sentando-se à mesa.
- Algo assim… - sussurrou ele, baixando a cabeça.

Eva começava a perceber onde o irmão queria chegar. Sentou-se ao lado dele e disse entre dentes:
- Não te armes em menino. Vamos almoçar como tínhamos combinado e a Íris vai connosco. Se estiveres realmente muito incomodado, almoças e vais-te embora, mas duvido que faças isso. Mal consegues olhar para o lado quando estás perto dela. Como disseste à tarde “Sou tua irmã e conheço-te desde que aqui vieste parar. “Nem te atrevas a não aparecer Pedro Miguel!


Pedro Miguel…quando o chamavam assim sabia a léguas que o caldo estava entornado. Pior que almoçar com Íris sem começar a pôr os pés pelas mãos, seria almoçar com aquelas duas. Quando se juntavam eram o disparate em pessoa. Lá teria de ser, que Deus o ajudasse. 

Share This Article:

,

CONVERSATION

4 comentários :

  1. Estou a gostar bastante da história! Devorei as duas partes deste capítulo num instante. Tenho que ir ao wattpad ler o resto ;)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Fico à espera de comentários e críticas ;)

      Eliminar