Quando o ♥ Não Perdoa | Cap.3_Pt.1


“Foi no início de Março de 1992 que decidimos ter um filho, mas a ansiedade era tanta que só em Agosto desse mesmo ano consegui engravidar.
Os primeiros três meses foram muito complicados, enjoos, vómitos…não comia nada, estava sempre deitada até que fui internada onde estive ligada a soro para não desidratar e alimentar o bebé. Quando essa fase passou regressei a casa. A partir daí foi muito engraçado; eu estava bem, o bebé também, a barriga começou a crescer e o bebé a mexer. Até que chegou o dia de sabermos o sexo do bebé e ficámos a saber que era uma menina.
Ficámos muito contentes, embora o teu pai quisesse um menino e dissesse “E agora? O que faço às canas de pesca e às motas?” mas tu quiseste tudo isso, eras uma maria-rapaz.
Tudo correu bem até ao final da gravidez, até que naquela noite de treze de Maio às 2h e 30m da manhã acordei com uma dor nas costelas que não aguentava mais nem sequer me conseguia dobrar para me levantar.
O teu pai levou-me logo para o hospital. Tu ias nascer.
Foram muitas horas de sofrimento e de dores, nasceste dezasseis horas depois de começar o trabalho de parto, trazias os olhos muito abertos e vinhas esfomeada. O teu pai ainda te viu nesse dia e eu passava horas a olhar para ti. No dia seguinte, na hora da visita, ele olhava para ti, olhava para mim e dizíamos “É tão linda”…depois, com uma lágrima nos olhos “É a nossa princesa”.”

Tinha sido assim, há mais de duas décadas, que Eva tinha vindo ao mundo.
Poucos anos depois, farta de brincar sozinha, começou a martirizar os pais; queria um irmão/irmã à força toda. Em alturas de desespero costumava dizer que queria um mano nem que fosse de barro, ou da loja dos trezentos. Na verdade, os pais tinham tentado durante imenso tempo um segundo bebé, mas por qualquer motivo nunca acontecia, chegando ao ponto da mãe de Eva se questionar se Deus não a achava merecedora de criar e amar mais uma criança.
Triste e talvez até um pouco revoltada com a falta de resposta às suas preces durante tanto tempo, decidiu deixar de tentar engravidar, entrando assim num processo de adoção. Levou algum tempo, mais do que deveria, mas Pedro apareceu. Não foi por ser rapaz e o pai querer um menino, foi algo mais, como amor à primeira vista. Pedro era um bebé recém-nascido que entrou no sistema mal saíra do ventre da mãe, precisava de uma família que o desejasse e acima de tudo, que o amasse. Essa família seria Eva, que tanto implorara por um irmão, e os seus pais, desgostosos pelas tentativas falhadas de uma segunda gravidez.
Apesar de ser adotado, nunca houve distinções entre filhos e quando Pedro tinha idade para saber e compreender de onde tinha vindo, não se chateou nem procurou saber mais…pelo contrário, para ele, aqueles dois seres humanos à sua frente eram os seus pais verdadeiros, de sangue ou não, tinham-no criado, educado e amado. Apesar de não serem uma família de grandes posses nunca faltou nada realmente importante aos filhos, muito menos amor e carinho. Desde esse dia o assunto nunca mais tinha sido referido, para qualquer efeito, Pedro pertencia à família.
Se mais tarde ele quisesse saber informações dos pais biológicos, seria uma decisão sua, mas o rapaz não queria saber minimamente desse assunto. Aqueles eram os seus pais, a sua família. E isso bastava.
Poucos meses depois de Pedro ter chegado à família, no início do ano seguinte numa noite gelada, Eva com olhos brilhantes e sorriso largo, recebeu com entusiasmo a notícia que a mãe estava grávida. Afinal Deus tinha escutado as suas preces, talvez apenas tivesse demorado algum tempo a respondê-las da forma que eles queriam.
A segunda gravidez da mãe foi tão complicada quanto a primeira, até um pouco mais. Houve internamentos, muita coisa que uma menina com quase seis anos não entendia, mas que quando crescida e confrontada com a história, agradeceu a Deus por a mãe ainda estar viva.
Levou algum tempo, mas quando tudo se estabilizou, Eva perguntava diariamente e por vezes mais do que uma vez, se ainda faltava muito para o bebé nascer. Enquanto isso, Pedro crescia quase de minuto a minuto sendo muitas vezes a vítima de brincadeiras inocentes (e responsáveis!) de Eva, não tivesse ela pedido tanto alguém com quem brincar.

Foi numa noite quente de Agosto, poucos dias depois de Pedro ter completado o seu primeiro ano de vida, que os pais de Eva correram para o hospital. Desta vez o bebé não tinha um pé entalado nas costelas da mãe, mas estava cheio de pressa de sair e conhecer o mundo, poupando umas quantas horas de sofrimento à mãe e ao resto da família, claro.

Quando no final do dia lhe foi permitido ver a mãe, Eva correu para cima da cama de hospital entusiasmada e ansiosa. Aquele ser tão pequenino nos braços da mãe, aquele rosto tão…angelical e as mãos minúsculas era a sua irmã. Susana. Su. Sendo ainda uma criança quase a entrar na escola primária, no seu jeito inocente de irmã mais velha prometeu que sempre amaria a irmã, que sempre cuidaria dela o resto da vida. Para o bem e para o mal. Afinal, já não queria um irmão de barro ou da loja dos trezentos, tinha Pedro e Susana, o melhor presente que poderia ter recebido.


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