Quando o ♥ Não Perdoa | Cap.3_Pt.2


Sendo já uma tradição dos três irmãos, na noite de aniversário de Susana passavam grande parte da noite junto ao lago da propriedade dos pais, sob um céu estrelado sem luzes da cidade a ofuscar as estrelas e aproveitando o escasso vento fresco que passava entre as folhagens, não fosse Agosto um dos meses mais quentes do Verão.
Apesar de Pedro também celebrar o aniversário no mesmo mês, escolheram o de Susana por a considerarem um milagre, quando ambos tinham idade para compreender que fora por um triz que não perderam tanto a irmã como a mãe numa das noites aflitas durante a gravidez em que foi levada para o hospital antes de tudo estabilizar.
- Como seria se eu não tivesse…nascido? – Perguntou Susana, deitada entre os irmãos, que observavam as estrelas e tentavam escapar às melgas.
- Uma seca. – Respondeu Pedro, distraído.
- Não iria conseguir aguentar aí com esse menino, sozinha. – Admitiu Eva, sorrindo. Pedro olhou-a de soslaio, sorrindo de seguida.
- Mas estás aqui, é o que importa e não vamos falar desse assunto, se fazem favor. – Pediu Pedro, que não era nada adepto daquele assunto, ao contrário da sua adoção, aquele não era um assunto que ele apenas desprezava, era um assunto que o magoava colocar sequer em hipótese ter perdido a irmã mais nova ou a única mãe que sempre conhecera.
- Sim. Ele tem razão. – Respondeu Eva.
Susana concordou, embora procurasse sempre saber mais junto da mãe ou da irmã. Sabia que a mãe estivera muito mal, quase que perdera o bebé mas numa intervenção divina Susana escapou, tal como a mãe e só por isso estava eternamente agradecida.
- Estou mais preocupado que as férias estão a terminar. – Resmungou Pedro.
- Não estou preocupada com isso, estou mais preocupada se escolhi a área certa. – Confessou Susana, pensando na escolha que tivera de fazer no final do ano letivo anterior.

Enquanto Pedro sabia seguramente que o seu futuro passava por veterinário, Susana ainda oscilou entre turismo e ciências que a levariam a tornar-se bióloga marinha. A caneta hesitou entre um quadrado destinado ao X da sua escolha e outro, mas a sua paixão por animais marinhos levou-a no caminho certo, assim ela esperava. Tinha receio que no fim de contas não gostasse assim tanto dessa área de estudo, mas e então? A irmã também tinha mudado de curso, não seria o fim do mundo. Ela apenas queria acertar à primeira e decidir o que queria ser quando fosse grande.

- Um dia saberás se escolheste bem ou não, não penses sequer em desistir ao primeiro obstáculo que te impuserem à frente. Sabes que isso é uma palavra que não faz parte do dicionário desta família. – Observou Eva, sorrindo ligeiramente, sabendo bem que Susana não era pessoa de desistir fosse do que fosse, mas tendo bem a noção do que a pressão do Secundário poderia causar.
- Desistir não. Claro que não. Mas…E se não gostar realmente?
- Mudas de curso. – Respondeu Pedro, sempre com a resposta debaixo da língua.
- Claro. Tens sempre essa hipótese, mas só se tiveres mesmo a certeza que não é aquilo que queres. – Disse Eva, espalmando uma melga no braço.

Susana suspirou. Tinha mais duas semanas de férias pela frente, mas à velocidade que o tempo corria seria como ter apenas dois dias antes de regressar à escola.

-Vocês miúdas stressam por tudo e por nada. – Resmungou o rapaz. – Mana, relaxa! Vais gostar de certeza da área que escolheste.
- Para ti é fácil falar, desde que me lembro que sempre disseste querer ser veterinário…

Pedro abanou a cabeça, dando-se por vencido naquele assunto. Sabia bem que havia certos assuntos que não valeria a pena continuar a discutir com as irmãs, não fossem ambas teimosas e cabeças duras. Não que ele também não o fosse mas…
Era um facto. Desde sempre, quando lhe perguntavam o que queria ser quando fosse grande a sua resposta fora sempre a mesma; veterinário. Tinha uma paixão pelos animais e defendia-os com unhas e dentes. Tal como as irmãs, detestava que mal tratassem os animais – embora sentisse um ódiozinho de estimação por bichos que rastejassem, já para não falar dos gritinhos de Eva cada vez que via uma abelha num raio de cinco metros e da fobia que Susana tinha por aranhas por mais minúsculas que fossem – mas sobretudo partia-lhe o coração ver os pobres animais indefesos a sofrer quer por acidente quer por doença.
Sabia que, tal como os humanos, os animais tinham a sua «data de validade» que um dia expiraria, mas se pudesse ajudá-los e dar-lhes mais um tempo de vida, porque não?
Uma coisa à qual era totalmente contra, era o facto de deixar os bichos sofrerem. Por muito que isso que lhe custasse e preparando-se para o seu futuro como veterinário, sabia que por vezes não existe mais nada que se possa fazer, senão terminar com o sofrimento e seguir em frente.
Apesar de ter um lado sensível, Pedro sabia quando endurecer o coração e agir, e talvez fosse isso que futuramente o iria manter são e focado quando começasse a exercer a profissão que sonhara desde menino.

- Terra chama Pedro! – Chamou Eva.
- Hmm. Desculpem. Estava longe…
- Muito longe mesmo. – Observou Susana.
- Bom, vamos terminar isto e regressar a casa antes que as melgas me comam os ossos se fazem favor? – Pediu o rapaz.

E por «terminar isto» ele queria dizer, terminar a tradição que mantinham desde há muitos anos naquela noite; atirarem uma pedra ao lago e pedirem silenciosamente um desejo que gostariam que Susana alcançasse durante o ano seguinte, enquanto ela, por seu lado ficava apenas a observar os irmãos. Nunca sabia o que eles desejavam para e por ela mas, quanto a si, sabia que o seu maior desejo era que continuassem sempre a ser a família unida que tinham sido até então. Não precisava de mais nada.
Quando Eva atirou a sua pedra e demorou alguns minutos a fitar a água escura do lago, Susana pôde ter um leve vislumbre do que iria na cabeça da irmã. Ela tinha sido o milagre da irmã mais velha, o seu maior desejo. Tinha sido abençoada e não podia estar mais grata por Deus a ter poupado e entregue àquela família. Com as palmas das mãos limpou as lágrimas que lhe escaparam dos olhos.
Sem pronunciarem qualquer palavra, juntaram-se os três num abraço apertado, cada um sabendo o que os outros estavam a sentir e a pensar. Estavam ligados para sempre, por laços de sangue ou não, eram irmãos, e isso era para sempre. Independentemente de tudo, para o bem e para o mal estavam juntos e era assim que deveria ser. Pertenciam-se uns aos outros.
Na noite que Susana celebrava mais um aniversário, Eva sentia-se completa. E acima de tudo, sentia que fechara um ciclo, independentemente do que isso significasse.


Sentia-se em paz.

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4 comentários :

  1. Acompanhei a história no Wattpad, e por aqui, e dou os meus parabéns 😍.
    Que continues com esse talento.
    Gostei de descobrir este blog. :)
    (Jú)

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