Quando o ♥ Não Perdoa | Cap.4_Pt.1


Tal como Susana previra, as duas semanas de férias que restavam passou num piscar de olhos. Num dia estava deitada na relva junto à piscina a aproveitar o que restava das férias e no dia seguinte já estava de mochila às costas a transpor os portões do liceu.
-Boa sorte maninha. – Desejou Pedro, dando-lhe um beijo na bochecha e seguindo para a sua aula.
- Para ti também. – Respondeu ela, com um sorriso nervoso nos lábios.

Ao contrário da nervosa Susana, Pedro estava entusiasmado (mesmo que não admitisse) por regressar às aulas. Agora que iria começar o décimo primeiro ano sentia-se mais adulto, mais responsável, mas também mais assustado por saber que no final do ano letivo tinha exames para fazer. O lado positivo é que faltavam apenas dois anos para terminar o liceu, o que por si só o entusiasmava ainda mais.
Se os exames de final de ano já lhe andavam a roubar horas de sono o mesmo se podia dizer acerca de Íris, que entrara na Faculdade. Saber que não a iria ver pelos corredores diariamente deixava Pedro um pouco desanimado, contudo talvez não fosse mesmo para ser. Tiveram um Verão espetacular, divertiram-se imenso juntos e mesmo sem precisarem de pronunciar em palavras a atração que os unia, sabiam que era mútuo. Foram um pequeno romance de Verão que Pedro não se importava de prolongar pelas outras estações, mas decidiram que seria melhor assim. Não que não confiasse em Íris, apenas achou complicado estar com alguém que veria raras vezes e, verdade seja dita, não era nada rapaz de namoros à distância, não percebia como isso poderia resultar. A rapariga concordou.
Continuarem amigos não facilitou em nada para Pedro, mas dadas as circunstâncias sabia que seria o máximo que teria de Íris naquele momento, mesmo assim não conseguia deixar de se sentir triste cada vez que recordava como era bom vê-la furtivamente pelo canto do olho nos intervalos das aulas.
- Desculpa…sabes onde fica o bloco E? – Susana assustou-se ao ouvir um rapaz atrás de si. Estava tão distraída a verificar o horário que quase teve um ataque cardíaco. – Não te queria assustar – rematou o rapaz.
- Hmm…não faz mal. Estava distraída. – Susana sorriu, sentindo-se rapidamente a corar. Puxou uma madeixa de cabelo para trás da orelha. – Bloco E? Último à esquerda.
- Obrigada…
- És novo por aqui? – Quis ela saber.
- Nota-se muito? – Ele sorriu timidamente. – Sim. Mudanças forçadas.
Susana assentiu.
-Não fui expulso nem nada do género! – Apressou-se o rapaz a esclarecer.
Ela soltou uma gargalhada genuína: - Nem sequer coloquei essa hipótese. Já agora…Susana – Apresentou-se, estendendo-lhe a mão que ele apertou delicadamente.
- Lourenço. – Sorriu. Aquele sorriso envergonhado de cachorrinho perdido e o aperto de mão fizeram com que Susana fosse invadida por uma corrente elétrica que lhe percorreu o corpo todo. Nunca tivera um namorado e achava que talvez ainda fosse demasiado cedo para começar, mas quem sabe se aquele choque elétrico no futuro viesse a significar algo.

Depois de alguns minutos a explicar a Lourenço onde se situava o quê, chegaram à conclusão que estavam ambos na mesma turma.

- Fixe. Pelo menos sei que não me vou perder. – Disse ele sorrindo, sentindo-se mais aliviado.
- Ajudo-te no que precisares. – Susana olhou para o horário mais uma vez. – Bom, para começar bem o dia vamos ter Físico-Química.

Lourenço torceu o nariz, revelando mais um ponto que tinham em comum; ambos se sentiam completamente à deriva nessa disciplina.
Enquanto os irmãos regressavam à rotina escolar, Eva também regressava ao trabalho após uns dias de férias. Apesar de gostar imenso do que fazia, não sentia qualquer ponta de saudade daqueles clientes complicados, ainda menos daqueles que entravam no escritório com a esperança que fosse algum consultório psiquiátrico ou algo do género, e fora isso que a fizera decidir que precisava urgentemente de fazer uma visita à biblioteca e trazer consigo um monte de livros para se distrair nas horas vagas.
O assunto «Vicente» tinha duas vertentes; ou distraía-a ou fazia com que se empenhasse mais em tudo, e ultimamente a leitura tinha sido descurada por esse motivo.  Apesar de já não se contactarem há alguns meses e quebrando a promessa que fizera a si mesma, no dia de aniversário dele acabara por lhe desejar um feliz dia. Não gostava de sentir remorsos e sobretudo, não se assemelhava a ele que no aniversário dela nada dissera, por isso mesmo decidira que não queria problemas com a sua consciência.
Vicente era uma história bastante complicada que poderia ter sido muito simples se ambos se soubessem ter, mas tal não aconteceu e apenas havia um caminho a seguir; em frente, sempre.
Eva tinha noção que nunca o iria esquecer, afinal era uma pessoa que tinha feito parte da sua vida e isso simplesmente não se apaga das memórias. Pode-se enterrar num recanto qualquer escuro, mas não se apaga definitivamente e teria de lidar com isso para seu próprio bem. Sabia que ele tinha sido o seu primeiro namorado, o seu primeiro amor, mas não tinha de ser o último. Talvez levasse algum tempo a encontrar o seu verdadeiro amor arrebatador que a levaria ao altar, talvez demorasse algum tempo a juntar os cacos todos do coração partido, mas esse dia acabaria por chegar, apenas não se podia prender ao passado e muito menos a uma pessoa que saíra da sua vida definitivamente. No fim de contas, talvez ela própria não significasse grande coisa para ele, pelo menos não o suficiente para o fazer querer endireitar a sua vida e entender-se com ela.


Foi com estes pensamentos e com a decisão acertada de deitar este assunto para trás das costas que entrou na biblioteca e o improvável aconteceu. 

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