Quando o ♥ Não Perdoa | Cap.4_Pt.2


Na mão levava a lista dos livros que iria procurar (e que ao sair da biblioteca possivelmente teria o dobro do tamanho, como sempre), caminhava distraidamente entre as prateleiras de livros, lendo as lombadas e virando o pescoço para um lado e para o outro, conforme a direção que os títulos estavam escritos, estava tão absorvida no seu mundo que quando virou no corredor seguinte chocou contra um rapaz, pregando com todos os livros que ele tinha nas mãos ao chão.
No espaço de tempo que leva uma pessoa a sentir-se o ser humano mais desastrado do planeta e pedir desculpa apressando-se a ajudar a apanhar os livros, na cabeça de Eva fez eco as palavras da irmã: “Com tantas visitas à biblioteca aposto que ainda encontras por lá o teu verdadeiro rapaz de sonho”. Sentiu-se ridícula, não só pelo estrondo que acabara de causar, pela vergonha que acabara de passar, mas sobretudo pelo fugaz pensamento que as palavras de Susana deixaram para trás.
Fosse como fosse, quantos rapazes se interessavam por leitura, mesmo? Qual a probabilidade? Uma em não sei quantos milhões?

- Desculpa. – Pediu. – Desculpa não sei onde estava com a cabeça. – Disse ela, atrapalhada.
-Não tem problema, também estava distraído, acontece. – Respondeu o rapaz, que aos olhos de Eva pareceu também um pouco envergonhado.

Um silêncio desconfortável instalou-se entre eles até que o jovem leitor desconhecido o quebrou por fim.

-Stephen King? – Quis saber, dando uma espreitadela aos livros que Eva tinha na mão.
- Hmm. Sim… Nunca li nada dele, mas gostei da série que foi inspirada nestes livros…
- Vais gostar. – Iria mesmo? Isso significava o quê? Que ele conhecia o autor? Que lia o mesmo que ela?  OK, talvez a probabilidade de «um em não sei quantos milhões» devesse ser estendida para um em não sei quantos bilhões ou trilhões. – Bom, tenho de ir. – Disse ele. – Como te chamas mesmo? – Quis saber, semicerrando os olhos.

-Eva. – Disse, simplesmente.
- Daniel. – Sorriu. – Costumas vir à biblioteca muitas vezes, Eva?

A rapariga riu-se, uma vez mais com as palavras da irmã a fazer eco na sua cabeça.
 - Parece que venho as suficientes.

Com certeza Daniel não percebera bem aquela resposta, mas em vez de o demonstrar apenas disse:
- Então até à próxima, Eva, e cuidado para não atropelares mais pessoas nos corredores de romance ou ficção-científica.

Eva permaneceu onde estava, com os olhos colados nas costas de Daniel. Que raio tinha acabado de acontecer? Perguntou-se, retomando muito lentamente a compostura.
A custo lá conseguiu chegar ao balcão onde poderia requisitar os livros e saiu da biblioteca ainda um tanto atordoada e acima de tudo, envergonhada. Era o desastre em pessoa, não tinha emenda. Ainda pensou em ligar à irmã, mas reparou que pelas horas ela estaria numa aula qualquer, o que ela própria desconhecia era que Susana também tinha novidades para lhe contar.

- Oh, vida a minha. – Suspirou, atirando o monte de livros para o banco do passageiro.

Depois de Vicente, não se interessara por outro rapaz. Além de ser tudo um pouco recente não achava possível que num futuro próximo existisse alguém capaz de voltar a mexer com os seus nervos e perguntava-se se algum dia estaria pronta caso isso acontecesse. Sabia que era inevitável, que um dia com certeza iria existir outro alguém tanto na vida dela como na de Vicente, mas pela primeira vez isso não a preocupou. Talvez fosse o seu coração (e também o bom senso) a dar sinais que, finalmente, estava a superar o namoro longo e por fim, falhado, com o ex-namorado. Por muito que o tivesse amado da forma ingénua que qualquer jovem na casa dos vinte anos ama, sabia que a história de ambos não só tinha mudado de capítulo como tinha terminado definitivamente. Não valia mais a pena continuar a insistir, pelo menos não poderia dizer que não tinha tentado, porque tinha.
Tinha tentado imensas vezes, mas simplesmente já não se comunicavam como no passado. Algures no caminho, ambos tinham mudado, tornando-se pessoas diferentes, e ela detestava a nova pessoa que Vicente se tornara.
Daniel até poderia ser um mafioso qualquer bem-parecido e com bom gosto para os livros, mas definitivamente intrigava-a por completo. Talvez fosse aquele seu ar misterioso…
O destino, o Karma ou o que fosse, realmente era matreiro.

-Tenho de ir trabalhar. – Disse para com os seus botões. Rodou a chave e ouviu o motor a trabalhar a um ritmo mais certo que o seu pobre coração que ainda lhe latejava na cabeça.

Se havia dias que concentrar-se no que estava a fazer era uma tremenda batalha, por incrível que parecesse, naquela tarde foi fácil concentrar-se no monte de trabalho que tinha pela frente, deixando Vicente, Daniel e tudo o resto fora dos seus pensamentos e focando-se apenas em terminar o projeto em questão o mais depressa que fosse possível. Adorava o que fazia, mas quando lhe caía nas mãos algum trabalho mais aborrecido preferia despachá-lo do que perder tempo sem fim a lamentar-se silenciosamente.
Quando o telemóvel roncou em cima da secretária dando sinal de nova mensagem não ganhou para o susto, tão embrenhada estava no trabalho que tinha em mãos.  Pior ainda foi quando reconheceu o número do remetente.
- Olá. Tudo bem? Podemos falar?



Definitivamente o destino era tramado, por vezes até estúpido, mas quando o destino chama requer uma resposta, seja ela qual for, até mesmo quando não sabemos o que lhe responder.

Share This Article:

,

CONVERSATION

2 comentários :

  1. Não vou ler este post porque não quero spoilers ahahah TENHO QUE COMEÇAR URGENTEMENTE A LER!!!

    Beijinhos
    That Girl | FACEBOOK PAGE | INSTAGRAM | TWITTER

    ResponderEliminar