Quando o ♥ Não Perdoa | Cap.5_Pt.1



Era um belo final de tarde do mês de Setembro, Eva e Susana estavam sentadas num velho tronco à beira do lago com o Sol a descer lentamente por trás das árvores.

- Que achas? - Perguntou Eva, depois de contar o que tinha acontecido na biblioteca e a mensagem que tinha recebido de Vicente.
- Lembras-te do que eu disse sobre encontrares do teu verdadeiro rapaz de sonho numa biblioteca?

Eva assentiu
-Então confia em mim. - Susana sorriu, travessa - Mas sobretudo confia em ti e no destino. No dia que acidentalmente conheces uma nova pessoa o teu ex-namorado lembra-se de dar notícias, isso maninha, é o destino a pôr-te à prova. – Fez uma pausa. – Respondes-te à mensagem?
- Não. E tenho o pressentimento que não o vou fazer. Acho que o meu silêncio por si só será uma resposta, não?

Eva deixou aquelas palavras surtirem efeito na sua própria cabeça e suspirou.

- Su, sei que andas à procura de respostas. - Disse, sabendo que a irmã queria sempre saber mais sobre o milagre que ela era. - Não há muito que te possa dizer, que já não saibas. A mãe estava doente, mas ela....
- ...Não teve culpa. - disse Susana, completando. - Eu sei mana. Claro que a mãe não teve culpa, ninguém teve, certo? É por isso que eu quero que a ajudes a perdoar a si própria. – Pediu.

Eva começou a ficar bastante confusa com o rumo que a conversa estava a levar.

- Como assim? – Quis saber.
- Terias sido uma boa irmã, Eva. – Teria sido? Então não o era? Como assim? - Acredita que eu também o teria sido, mas não estava planeado ser assim. - Deslizou a mão pela face da irmã.
- Su, como é possível teres as mãos tão frias? Por amor de Deus. - Soltou uma gargalhada nervosa, esquecendo-se que ela própria tinha quase sempre as mãos frias, mesmo no Verão.
-Eu estou sempre ao teu lado irmãzinha, sempre estive mesmo sem saberes. Confia em mim; confia em ti.

Eva continuava bastante confusa e sem palavras. Já não entendia nada do que estava a acontecer, por momentos até pensou estar a sonhar.

- Fazes uma coisa por mim? - Pediu Susana.


Eva assentiu.
- Perdoa tu também. A quem quer que seja que culpes, perdoa. Não era para ser, apenas isso. Tens a mãe, e isso sim foi um milagre. O coração nem sempre perdoa, mas está na altura de perdoares. Podes não esquecer, eu sei que não esquecerás, mas perdoa. Ficarás mais leve e será mais fácil. Eu não irei a lado nenhum, estarei sempre contigo onde quer que vás.

Eva sentiu as lágrimas correm-lhe pelo rosto, estava tão perplexa, tão…baralhada. De repente sentiu-se encandeada pelo Sol, era uma luz tão forte e incandescente que por momentos a cegou, levando-a a esconder os olhos com as mãos.

-Su? - Chamou - Não consigo ver nada. O que é isto? Estás bem? – Não ouviu uma resposta - Susana! – Repetiu, num grito que lhe ficou preso na garganta.

Demorou alguns segundos a lutar contra si própria até conseguir abrir os olhos.
Acordou encharcada em suor, com os primeiros raios de Sol a entrar-lhe furtivamente pela janela e a roupa da cama em desalinho. O coração martelava-lhe na cabeça.
Não estava sentada no velho tronco à beira do lago, Susana não estava ao seu lado, não tinha um irmão adotado chamado Pedro, nem sequer era um final de Verão, mas sim uma manhã gelada, ainda que solarenga, de Inverno.

Tinha sido um sonho. Tudo…
Tinha sido apenas mais um sonho com a sua irmã que tanto amava mesmo sem sequer ter tido a oportunidade de conhecer. No final, amou-a ainda mais por saber que as palavras que Susana proferira no seu sonho “Eu estou sempre ao teu lado irmãzinha, sempre estive mesmo sem saberes. Confia em mim; confia em ti.” no fundo eram verdadeiras.
Tinham-lhes roubando a chance de se terem conhecido, Susana tinha sido levada tão precocemente, mas deixara uma marca tão profunda nos seus corações, no de Eva e no da mãe, sobretudo.
Então, ela soube; podia não ter tido uma irmã fisicamente, mas tinha uma espiritualmente. Tinha a mãe bem de saúde, e viva, acima de tudo. Por isso Susana tinha razão; estava na altura de perdoar a quem quer que fosse que culpassem. Não seria por isso que a iriam esquecer, porque não iam. Mas tornaria tudo mais fácil.

No fim de contas, Susana estava sempre por perto, só tinham de se permitir sentir isso, acreditar nisso. Porque por vezes, Quando o Coração Não Perdoa, resta-nos apenas acreditar em algo melhor. Erguer a cabeça, colocar um sorriso nos lábios, ter fé e enfrentar um dia de cada vez. Porque quando a nossa missão por cá terminar, temos a certeza que alguém nos espera do outro lado, e aí sim, fecha-se um ciclo e começa-se outro. 


É a Lei da Vida, o destino…nem tudo está nas nossas mãos, nem tudo tem respostas mas com certeza, tudo tem porquês.

**FIM** 

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