«É um ano novo e Lara Jean e Peter deixaram de fingir que são um casal. Eles são realmente um casal. E, enquanto Lara Jean navega por uma série de estreias oficiais com Peter - o seu primeiro beijo de verdade, o seu primeiro encontro de verdade, o seu primeiro dia dos namorados - ela procura Kitty, Margot, Chris e uma inesperada nova confidente, Stormy, para ajudá-la a gerir as emoções complexas que acompanham este novo capítulo de equilibrar um relacionamento e descobrir seu eu autêntico.
Mas quando John Ambrose, outro destinatário de uma das antigas cartas de amor de Lara Jean, entra na sua vida novamente, ela deve confiar em si mesma mais do que nunca ao enfrentar o seu primeiro dilema real: uma rapariga pode apaixonar-se por dois rapazes de uma vez só?»
Devo dizer que este é o segundo filme da saga e eu não sabia até começar a pesquisar a sinopse para colocar neste post!
Ou seja, no início do filme suspeitei que havia história para trás, mas não me dei ao trabalho de imaginar que realmente existiria um primeiro filme.
De qualquer modo, percebi perfeitamente a história e claro que agora irei ver o primeiro na mesma.
Sobre "To All the Boys : P.S I Still Love You", devo dizer que andava curiosa pelos livros, que ainda não tive oportunidade de ler e agora mais curiosa fiquei. Espero poder lê-los em breve porque adorei o filme. Apesar de ser o típico filme de adolescentes, não achei que fosse um total cliché romântico, pelo contrário, surpreendeu-me!
Mal posso esperar por ver o anterior.
Já viram? Conhecem os livros?
Avaliação The Choice: ★★★★☆
Sou adepta das decorações minimalistas e ao mesmo tempo que tenham a ver comigo. Depois de ter o móvel da TV montado na sala, achava a parede branca e vazia demais por cima da TV. Não queria colocar prateleiras então optei pelos quadros.
Bem antes do final do ano, decidi começar a procurar alguma coisa que ficasse ali bem. No aliexpress demorei a decidir-me quais devia encomendar. Já tinha o meu retrato a carvão desenhado pela Diana Santiago, então escolhi dois quadros que tivessem a ver comigo.
O da esquerda mostra uma bússola, que simboliza encontrar o meu caminho sempre de regresso a casa. O da direita é uma frase que se encaixa perfeitamente na minha pessoa e na minha jornada a que chamamos de vida. Comprei as molduras em tons de preto por ser também uma cor neutra e conjugar bem com as restantes cores da sala.
Segunda Parte
2018
Há
seis anos atrás fiz uma cirurgia e desde então a minha vida nunca mais foi a
mesma. Por vezes tenho a sensação de que alguém me persegue, chego mesmo ao
ponto de olhar por cima do ombro. Já para não falar dos sonhos estranhos que
comecei a ter desde então, com a minha família, os meus amigos, mas também constantemente
com duas pessoas que eu não conhecia, embora me parecessem muito familiares: um
rapaz de cabelos escuros, olhos azuis e sorriso traquina e uma rapariga, de
cabelos alourados e olhos azuis, ambos adolescentes. O rapaz não, mas a
rapariga é bastante parecida com uma foto do meu próprio pai enquanto criança.
O mesmo olhar. Aquele sorriso.
Certa noite, num desses sonhos, eu
brincava com o rapaz no jardim da minha casa, num monte de terra, rodeados por
carrinhos e tratores. Estávamos ambos sujos até às orelhas. Noutras vezes sonho
com a rapariga, quando ela era bebé e a peguei ao colo e depois já com ela em
adolescente, cúmplices uma da outra. Sentia-me ligada a eles. Ainda sinto, mas naquela
altura continuava sem entender muito bem os meus sonhos. Não foi apenas uma
vez, acontecia-me cerca de duas ou três vezes por mês, sonhos aleatórios, mas
sempre com essas pessoas. Contudo, hoje sei que não eram apenas simples sonhos,
sinto que são memórias embora não entendesse que memórias poderiam ser essas. Era
impossível, ou assim eu julgava.
Hoje já não acredito no impossível. Existe
muito mais para além daquilo que podemos ver e sentir. Cada um acredita no que
quiser, mas quanto a mim, passei por coisas que me mostraram que, sem dúvida,
tinha um anjo-da-guarda sempre de plantão, tendo em conta tudo o que já tive de
ultrapassar.
Ter um anjo-da-guarda não me torna
indestrutível, mas dá-me força e esperança. Acreditar que tenho alguém sempre
ao meu lado mesmo quando me sinto tão sozinha faz-me acreditar, dá-me confiança
em mim própria. Eu não tenho apenas um anjo-da-guarda, tenho dois. O meu
querido avô, que o cancro levou há mais de uma década, partindo-me o coração, e
a minha irmãzinha.
Sempre me senti acompanhada por ele, mas
nunca por ela. Talvez não tivesse a mente aberta a esse ponto. Hoje tenho. Hoje
sei que não me abandona onde quer que eu vá, onde quer que a vida me leve ela
vai lá estar, dentro do meu coração, no meu pensamento… sempre. Se eu fechar os
olhos consigo vê-la, consigo imaginar como seria ela e como seria a nossa vida
de irmãs. Se me concentrar, consigo senti-la e nesses momentos acredito que nada,
mesmo nada, é impossível. Basta deixarmos o nosso coração aberto.
Mas voltando um pouco atrás… quando
acordava desses sonhos estranhos que me incomodavam de vez em quando, perguntava-me
o que significariam. Tinha a certeza que não os conhecia, ainda assim sempre
senti uma afinidade… um carinho tão grande por eles, como se fossem meus
irmãos. Mas eu não tenho irmãos. Infelizmente, sou filha única.
Não foi por falta de birras a pedir um
irmão ou irmã nem que fosse da loja dos trezentos ou de barro, – pedidos de uma
criança ingénua, vai-se lá entender! – nem por falta de tentativas dos meus
pais. Eles conseguiram, apenas correu mal.
Há 19 anos eu não entendia, mas hoje
entendo que poderia ter corrido ainda pior. Naquela tarde podia não só ter
perdido a minha irmã ou irmão (na altura a minha mãe não quis saber o sexo do
bebé), podia também ter perdido a minha mãe. A minha mãezinha.
Lembram-se de vos dizer que me achava
azarada antes de entrar para o bloco operatório? Passaram-se seis anos e
aprendi a encarar a minha vida como nunca antes tinha feito. Hoje sinto-me
sortuda, abençoada. E isso começa nos pais que tenho e pela gratidão que sinto
em relação a eles por tudo o que a nossa família já viveu, já sofreu. Por tudo
o que eu própria já tive de lutar e de vencer.
Se não fosse por eles, se não fosse com o
apoio que me dão, com certeza cairia na primeira rasteira que a vida me
pregasse.
Mas eu aprendi a ser forte. Aprendi que
sou capaz de tudo o que eu quiser, basta querer e lutar por isso. Lutar muito.
Outra coisa que aprendi foi que a vida não nos
dá nada de mão beijada, mas também nos pode recompensar se fizermos por
merecer, tal como também pode ser injusta quando lhe apetece.
A vida ensinou-me muito e ensinou-me ainda
mais a escutar todos os sinais que nos são dados, mesmo que não os percebamos
agora, mais tarde fará sentido. E fez sentido para mim quando eu menos
esperava.
Agora vou contar-vos a história da minha
mãe e da minha irmã.

Depois de tantos pedidos da minha parte
para os meus pais me darem um irmão ou uma irmã, eles começaram a tratar do
assunto e oito meses depois a minha mãe, Isabel, conseguiu engravidar.
Estava tudo planeado por ela; eu fazia
seis anos em maio e em setembro entraria para a escola primária, deixando a
minha mãe em casa a cuidar do bebé que nasceria em agosto. Estava tudo
controlado, ou assim eles julgavam.
No início da gravidez a minha mãe sofreu
de muitos enjoos, muitas idas ao hospital por estar constantemente a vomitar
até que numa dessas vezes, numa sexta-feira antes do Carnaval, ela ficou
internada alguns dias devido a ter febre e perdas de sangue.
Os dias passaram-se e a febre sem baixar
porque devido à gravidez não podia tomar muitos medicamentos para não
prejudicar o bebé, a única solução era tentarem baixar a febre com toalhas
molhadas. Nunca resultou realmente.
A febre provinha de uma infeção urinária e
renal, e como não podia tomar antibióticos foi piorando, piorando, até que
naquela tarde de quarta-feira após o Carnaval, no dia 16 de fevereiro de 1999, mesmo
à hora da visita da tarde, a minha mãe sentiu que tinha uma bolha a rebentar
dentro dela, sentiu-se toda molhada e pediu à minha avó que procurasse ajuda.
A enfermeira foi rápida, mandou todas as
pessoas saírem e depois de ver o que se passava chamou o médico com urgência.
Confirmou-se: tínhamos perdido o meu tão desejado irmão ou irmã.
Na altura nunca quisemos saber o sexo do
bebé, mas mais tarde soubemos que seria a nossa Susana. Mais uma menina para a
família, a minha irmãzinha que eu tanto tinha pedido e sonhado.
A três meses de fazer seis anos eu não
tinha noção do que estava a acontecer, não tenho memórias desses dias, nem me
lembro sequer de ver a minha mãe grávida, embora soubesse que estava. Sinto
que, na minha inocência infantil, bloqueei esses dias da minha memória. A única
recordação que tenho é daquele dia de Carnaval, em que, com um vestido amarelo
de princesa e coroa na cabeça, fui com o meu pai ver o desfile enquanto a minha
mãe estava no hospital, doente. Não me lembro que nesse dia a fui ver, tão-pouco.
Ela fala-me nisso, conta-me como foram
aqueles tempos, conta-me o que eu não recordo e mesmo assim nada na minha
memória ganha vida. Foi muito difícil para ela, para todos nós, mas só quando
cresci e soube a história tal como foi é que tive noção da gravidade do que
tinha acontecido naquela tarde de quarta-feira.
Perdemos a nossa Susana, mas foi por pouco
que não perdi a minha mãe também.
Como se não bastasse perder o seu bebé, apesar
de o seu organismo expulsar o feto por causa da febre, a placenta ficou toda
agarrada ao útero e horas depois tiveram que lhe fazer uma curetagem a sangue frio.
Custa-me saber o que ela sofreu, as dores que teve e custa ainda mais saber que
quase não sobreviveu. A minha mãe conta que apenas se lembra da enfermeira a
gritar para o médico “Cuidado com a tensão doutor, está muito próxima, cuidado…
cuidado” e apagou. Não sabe o que lhe fizeram depois, quando acordou já era de
madrugada e estava novamente no quarto.
Desde que acordou que nunca mais pregou
olho, apenas a pensar no bebé que tinha perdido.
Estava grávida de 14 semanas. Era um bebé
muito desejado por todos nós e foi um golpe duro de suportar. Os dias que se
seguiram foram horríveis, a minha mãe chorava muito às escondidas e dizia que
se Deus lhe tirou aquele bebé era porque não a achava boa mãe e foi esse o seu pensamento
durante muito tempo.
Não sabia ela que era a melhor mãe que
qualquer filho poderia ter, acima de tudo uma melhor amiga para as horas boas e
menos boas. Uma confidente.
E foi assim que deixei de pedir um irmão
ou irmã, mesmo de barro ou da loja dos trezentos. Na minha inocência de criança
só não queria ver a minha mãe sofrer novamente. Não a queria perder. Nunca.
Quando cresci entendi a gravidade do
assunto, mas nunca culpei a minha mãe pelo sucedido. Não foi culpa sua nem de
ninguém, apenas não era para ser.
Eu culpava Deus. Culpava-o porque
sentia-me sozinha, detestava brincar sozinha ou com amigos imaginários e por
isso pedia tanto um irmão, mas não era suposto a minha mãe sofrer tanto com os
meus pedidos. Culpei-o durante muitos anos, assim como presumo que ela o tenha
culpado. Hoje sou-lhe grata por ter poupado a vida da minha mãe. Sei que podia
ser bem pior, mas não estava na sua hora. Ele sabia que ela me era necessária,
que nos anos seguintes seria e ainda hoje é, o meu porto de abrigo, a minha
força, a minha supermãe e supermulher.
Como muitas vezes lhe digo; mãe, quando for grande quero ser como tu.
Sorte dos meus filhos se um dia eu for metade da mãe que tens sido para mim. E
sim, tu eras merecedora de ter mais um, dois ou três filhos, mas és ainda mais
merecedora de viver a tua vida com a tua positividade como só tu sabes, mesmo
que tudo esteja do avesso.
Agora
peço que perdoes, que te perdoes. Perdoa Deus, ele sabe o que faz, acredita.
Não te peço para esquecer, nunca esquecerás, mas peço-te que pegues nessa dor e
a transformes em algo bom, tal como a mana queria. Quero que a transformes em
esperança para quem precisa dela. Tu, melhor que ninguém, sabes o que é perder
um filho. Por isso, pega nessa mágoa e faz algo de bom com ela. Faz a Susana
ficar orgulhosa, ainda mais do que já é, certamente.
Esta
é a nossa história. De nós a três. E não acaba aqui, mãe. Só acaba quando
houver um ponto final, enquanto isso, serão apenas virgulas e mudanças de
página.

Mãe
Depois de perder o meu bebé, os dias que
se seguiram foram horríveis, chorei muito às escondidas, agarrada à primeira
roupinha que lhe tinha comprado. Ainda hoje guardo com muito amor aquele
fatinho de calça e casaco verde água e branco, nunca o irei dar a ninguém pelo
seu significado e pelas lágrimas que carrega.
Dizia muitas vezes que se Deus me tirou
aquele bebé é porque eu não era boa mãe e assim pensei durante muito tempo,
culpando-me pelo que tinha acontecido.
Foi difícil aceitar aquela decisão de
Deus, mas mais tarde pensei: e se o meu bebé tinha hipóteses de nascer malformado
e de vir a sofrer? Talvez Deus até tenha sido meu amigo ao ficar com aquele
anjinho para ele, talvez até precisasse.
E foi assim que com o passar dos anos me
fui conformando e aceitando aquela triste perda que jamais iria esquecer,
afinal, era o meu bebé, um bebé muito desejado por todos nós.
Aos poucos fui restaurando a minha fé em
Deus, até que há uns anos atrás, em 2015, para ser mais precisa, estava sozinha
em casa, andava nas minhas lides domésticas e ouvi uma voz que vinha do jardim
e me perguntou “Ó mãe… o que é aquilo?”. Eu respondi “O quê, filha?” e do nada
ocorreu-me que estava sozinha em casa, o meu marido e a minha filha já tinham
saído para trabalhar. Como seria possível ouvir aquela voz tão igual à da minha
filha quando tinha mais ou menos seis anos? O mesmo timbre, aquela expressão
traquina e despachada… a partir daquele momento fico a pensar se aquela voz que
agora me chama mãe quando me encontro sozinha será a voz do meu anjinho.
Acredito que sim e assim muitas vezes
sinto a presença dela, a presença da minha segunda filha, a Susana – era esse o
nome que lhe daríamos se fosse uma menina.
Se até então pensávamos que seria um
menino, o Pedro Miguel, como o meu marido queria, a partir daquele dia em que
ouvi aquela voz pela primeira vez, fiquei com a certeza que afinal era uma
menina. A minha menina.
Hoje em dia começa a ser mais fácil
aceitar, já não me culpo, afinal eu não tive culpa, estava muito doente,
aconteceu e aprendi a lidar com a situação à minha maneira e no seu devido
tempo. Quando ouço aquela voz, respondo-lhe sempre e agora sei que me vem ver e
dar força nos dias mais difíceis de suportar, sei que ela é um dos meus
anjinhos da guarda, sempre presente nas horas boas e nas horas menos boas.
Agora, aqui deixo uma mensagem para todas
as mães que de uma forma ou de outra perderam os seus filhos; não é fácil, mas não fiquem tristes, aceitem
e façam o vosso luto porque os nossos anjinhos estão bem e estão sempre
presentes, não fisicamente, mas espiritualmente, e se abrirem o coração e a
mente, conseguem senti-los, tenho a certeza. Tenham fé e acreditem em Deus, ele
escreve direito por linhas tortas.
Um
beijo do tamanho do mundo e um abraço bem reconfortante para todas as mães.

Eva
Depois de nunca mais falar sequer no
assunto quero um irmão aprendi, ainda
mais, a brincar sozinha com os meus tratores e camiões - nunca fui fã de
bonecas - pelos montes de terra da nossa quinta.
Sujava-me até às orelhas e aprendi a ser
feliz à minha maneira. Vantagem de ser criança, algum dia esquecemos, algum dia
tudo passa.
Mas antes de tudo passar, houve uma fase em
que me senti muito triste e deixada de parte. Todos os meus amigos tinham um
irmão ou uma irmã, e porque não eu? Contudo, nunca mais falei no assunto. Tinha
visto o sofrimento da minha mãe daquela vez e tinha-me bastado.
Então cresci, os anos passaram. Aos poucos
seguimos com as nossas vidas em frente, nunca esquecendo o bebé que tínhamos
perdido. Inicialmente tínhamos a certeza que seria um menino, um Pedro Miguel
como o meu pai queria, mas mais tarde por intervenção divina tivemos então a
certeza que não, seria mais uma menina para a família. Nesse dia chorei
agarrada à minha mãe. A nossa Susana.
A partir daí tudo começou a fazer sentido,
comecei a dar-lhe um rosto nos meus pensamentos, curiosamente acabava sempre
por ser idêntica à rapariga que assaltava os meus sonhos desde há alguns anos
atrás, desde que eu fora submetida a uma cirurgia difícil para corrigir um
problema de nascença. Não sabia o que tinha acontecido no tempo em que estive
anestesiada, mas mais tarde fui percebendo, aos poucos, e senti que nunca mais
iria estar sozinha. Tal como naquele dia à porta do bloco operatório, eu senti
que tinha alguém ali ao meu lado, a sussurrar-me Está tudo bem. Vai correr tudo bem. Relaxa.
Esses mesmos sonhos que eu tive durante
tanto tempo, mais tarde começaram a ganhar forma e a fazer sentido na minha
vida real. Eu não tinha nenhum Vicente na minha vida naquela altura, nem tão
pouco conhecia ninguém com esse nome, mas nos meus sonhos, havia sempre um rapaz
chamado Vicente. Sentia-me ligada a ele de alguma forma que ainda me era
desconhecida e por alguma razão aquela rapariga que agora sei que era a minha
irmã não lhe achava muita graça.
A minha cabeça estava um turbilhão pegado,
não fazia ideia do que pensar sobre os meus sonhos, chegando ao ponto de ter
ataques de pânico por não saber o que era real ou não.
Um ano depois conheci o meu primeiro amor,
aquele amor arrebatador que nos faz esquecer o mundo e a razão, o meu Vicente. Tinha
uns olhos azuis que me faziam perder a noção do espaço e do tempo, achei que
fosse amor para toda a vida, era realmente o meu primeiro amor, o meu verdadeiro
amor ou assim eu achava. Tornou-se mais que meu namorado, era o meu melhor
amigo, quem me conhecia melhor que ninguém e com quem voltei a partilhar os
meus problemas, dúvidas e receios depois de ter perdido a amizade da Filipa
anos antes. Na verdade, ele era tudo para mim. Tudo começava e acabava nele.
Amei-o mesmo de verdade, com cada gota do meu sangue, com cada célula do meu
corpo, com todo o meu coração.
Conhecemo-nos de passagem no liceu, poucos
meses antes de eu terminar o 12º ano e fechar aquele ciclo interminável que foi
para mim o ensino secundário e tudo o que isso trouxe consigo. Foram anos… complicados.
Estava ansiosa por fechar aquela porta e sair para o mundo real.
Naquele início de manhã chuvoso e
friorento trocámos um “Bom dia” envergonhado junto do nosso amigo em comum.
Na altura não significou grande coisa,
pelo menos para mim. Via-o de vez em quando nos intervalos das aulas, a
deambular pelo liceu com os amigos dele, achei-lhe piada e se nos tivéssemos
conhecido melhor talvez se tivesse tornado um bom amigo. Tal não aconteceu.
Quase um ano depois conheci-o realmente bem.
Éramos os dois tímidos e não sabendo bem
como nem por que caminhos, acabámos por nos apaixonar. Foi o meu primeiro amor
de verdade. Aos meus olhos tudo era perfeito até que deixou de ser.
Poucos meses depois de começarmos a
namorar começaram a surgir os problemas, alguns desnecessários causados pela
sua família, mas eu era ingénua e estava apaixonada. Se tivesse prestado
atenção talvez tudo tivesse ficado por ali, mas não ficou. Eu amava-o demais e
acreditava cegamente que ia correr tudo bem, iríamos ficar juntos até sermos
velhinhos. Devo dizer que mesmo assim, ao longo de todo o tempo que estivemos
juntos, eu fui realmente feliz. Estava apaixonada por um rapaz que eu achava
lindo e achava que tal como ele era o meu mundo, eu seria também o dele. A meu
ver, acho que não chegava a ser tudo isso para ele. Nunca senti realmente que o
era.
E foi assim que nos anos seguintes muitas
coisas aconteceram entre nós e por algum motivo as coisas não deram certo.
Apenas não tinha de ser. Acontece. Culpa dos dois ou de ninguém, apenas não deu
mais. Sofri muito com isso, afinal tinha entregado o meu coração e todo o meu
amor a alguém e no fim de contas não deu em nada. Foi difícil, creio que para
ele também tenha sido, mas no final, sei que terminar foi a melhor coisa que
podia ter feito pelo bem de ambos.
Nesse espaço de tempo, quatro anos para ser
mais precisa, em que o conheci e em que fomos cada um para o seu lado, os
sonhos tornaram-se mais intensos e incomodativos. Aquela rapariga continuava a
dizer-me que não era homem para mim, que algo melhor estava à minha espera e eu
continuava sem entender patavina do que se passava dentro da minha cabeça.
Mais tarde fez sentido, claro que fez!
Quando eu menos esperava. Aí já tinha mais ou menos noção do que estava a
acontecer comigo e com os meus sonhos, que comecei a entender como memórias
reprimidas do tempo em que estive desacordada na minha cirurgia, anos antes.
Era a única coisa que fazia sentido, a única explicação mais próxima do que se
define por lógico.
Então, algum tempo depois de ter terminado
a minha relação com o Vicente, aconteceu… Não foi numa biblioteca como a minha
irmã previra, mas foi à porta de uma pizzaria. E naquele segundo o meu coração
parou e caiu-me aos pés. Não sabia o que fazer, o que dizer. Ele estava ali, era ele.
E a partir daquele momento seria para
sempre ele, para o resto da vida. Não
era um príncipe encantado, mas definitivamente não era um sapo! Era tão lindo.
Tão… perfeito e simples.
Algum tempo depois descobri que ele era
tudo o que eu sempre quis, era alguém especial para mim, alguém com quem eu
gostava de estar e de conversar.
Eu não estava na melhor fase da minha vida,
mas com ele por perto era tudo muito melhor e foi assim que sem dar por isso me
apaixonei novamente e desta vez era algo diferente da primeira vez.
Nem sempre o primeiro amor é o último e no
meu caso, foi no meu segundo amor que encontrei tudo o que precisava e desejava
para o meu presente e para o meu futuro.
Quando me dei conta do que estava a
acontecer comigo é claro que tive medo, é claro que recuei mais depressa do que
avancei. Tinha medo de me magoar novamente, tinha medo de o magoar. Não estava,
de todo, preparada para uma nova relação, tendo sofrido tanto com a primeira.
Achava que precisava de mais tempo sozinha, sem me preocupar com alguém, sem me
dedicar a alguém… mas não mandamos no coração, é ele que manda em nós e com o
tempo e muita paciência por parte do Bernardo lá fui baixando as minhas
defesas, devagarinho, devagarinho até que caí em mim e percebi que não fazia
sentido nenhum negar nem esconder aquilo que sentia por ele ou fugir do que ele
sentia por mim. Foi aí que começou a fase mais bonita da minha vida até hoje.
Já lá vai quase um ano.
Ainda me lembro como se fosse ontem de
como tudo começou. O nosso almoço na pizzaria, o passeio dessa tarde, a sessão
de cinema… quando dei por mim já eram horas de regressar a casa, mas eu não
queria ir. Desejava continuar na sua companhia, a conversar com ele sobre tudo
e mais alguma coisa. Havia algo entre nós desde o início, hoje sei-o. Foi
mágico desde o primeiro momento.
Ainda me arrepio só de pensar na primeira
vez que me pegou na mão. A minha, fria como sempre, assustou-se quando a dele,
quente e aconchegante, pegou nela. Toda eu fui percorrida por um arrepio. Não
esperava essa atitude da parte dele, fui apanhada totalmente de surpresa, mas,
admito, gostei tanto, soube tão bem. E assim andámos o resto da tarde.
Já nos conhecíamos há alguns dias, já
tínhamos estado juntos algumas vezes, mas aquela tarde foi o ponto de partida
para o que viria depois. Nada mais interessava. Nada ao nosso redor era
importante. Naquele momento criámos a nossa bolha, o nosso pequeno mundo à
parte do mundo real.
Aos poucos fomos construindo a nossa
relação com base no que nos unia e rapidamente adotei a família dele como sendo
também minha. As nossas famílias juntas formavam uma grande e feliz família,
tal como eu sempre sonhara.
Pela primeira vez na vida adorei os sogros que tinha e sentia-me bem em casa
do meu namorado, coisa que anteriormente não acontecia. Comecei a ser feliz, realmente
feliz.
Claro que nem sempre corre bem, nem sempre
estamos de acordo, nem sempre nos conseguimos aturar, mas o que importa é que
no final acabamos sempre por nos entendermos de uma forma ou outra. Admito,
amo-o como nunca amei ninguém e se pudesse voltar atrás fazia tudo de novo, uma
e outra vez. Sem alterar nada, nem mesmo quando as minhas inseguranças falam
mais alto e é ele quem acaba por sofrer com o meu mau feitio e dúvidas. Mesmo
assim acredito em nós, até ao fim.
Agora sei a que se referia a minha
irmã quando me dizia nos meus sonhos que algo melhor estava à minha espera.
Creio que tinha de fechar aquele capítulo da minha vida para poder começar um
ainda melhor. Aprendi a perdoar o passado, os erros que se cometeram, as mágoas
que guardava dentro de mim, aprendi a perdoar e hoje sou feliz, mais do que
alguma vez fui. Sinto-me completa. Sinto que estou no lugar onde pertenço.
Apenas me faltava um pequeno pedaço para
tudo ficar realmente completo. A Filipa, aquela amizade que eu deixara que o
tempo levasse e os nossos erros estragassem. Contudo, como sempre, algo estava
por vir.

Nesse meio tempo descobri então a minha
veia de escritora, ganhando coragem para levar esse sonho mais além, com o
apoio do Bernardo, dos meus pais e de uma amiga que me incentivou a seguir o
rumo que me trouxe até aqui.
Depois da cirurgia há seis anos atrás, eu
tinha decidido escrever um livro. Pouco tempo depois comecei a trabalhar nele,
chamava-se “Nunca desistas de mim” e era dedicado à minha mãe, contudo nunca o
consegui terminar. Sem ideias para o continuar decidi começar um novo projeto.
De “Deixa-me Amar-te” passou para “Enquanto me Quiseres” e ficou-se pelo “Tudo
o que Sempre Quis”. Contava a história de cinco jovens que se tinham perdido na
estrada da vida e o destino juntara-os numa vila à beira mar, cruzando os seus
caminhos e ajudando-os a resolver os seus fantasmas e erros do passado. Uma
história sobre os nossos erros, as consequências e as segundas oportunidades,
mas acima de tudo uma história de esperança e força.
Bom, a história em si era ficção, embora
inspirada nalguns locais reais, em pessoas reais e com muitas coincidências que
só agora eu entendi, mas optei por escolher um título que me dizia tanto,
afinal, escrever um livro era tudo o que eu sempre quisera desde que era
adolescente e dava os meus pequenos textos e histórias soltas à Filipa para ela
ler. Ofereci-lhe inclusive um caderno piroso cor-de-rosa choque com uma abelha
no centro da capa e foi nesse caderno que depositei uma cópia dos meus textos e
histórias. Foi um presente que lhe dei há muitos, muitos anos e não sabia se
ainda o guardava.
Continuando, levei dois anos a terminar
aquele que foi o meu primeiro livro, tive vários meses sem conseguir escrever e
quando achava que seria apenas mais um projeto deitado pelo cano abaixo, a
inspiração surgiu e voltei a escrever como se a minha vida dependesse disso. Na
altura estava com o Vicente e foi ele o primeiro a ler o livro conforme o ia
escrevendo.
Quando o terminei tentei publicá-lo, mas
sem sucesso. Depois de receber tantos nãos
acabei por desistir dessa ideia maluca até que no final de 2017, em conversa
com uma amiga, ela motivou-me a voltar a tentar publicar. Os meus pais e o
Bernardo apoiaram-me nisso.
Tinham-se passado alguns anos desde que o
terminara, avizinhava-se muito trabalho pela frente, mas lá consegui. Realizei
o meu sonho e ainda não acredito nisso. Por vezes apetece-me desistir, acabar
com essa ideia maluca, com esse sonho de adolescente que depositava os seus
desejos e receios num caderno de capa preta que escondia do resto do mundo. Mas
há sempre algo ou alguém que não me deixa desistir, abandonar tudo por aqui.
Creio que é pela mensagem de esperança e reflexão que o livro tem por trás,
mensagem essa que eu gostava que chegasse às pessoas, as fizesse pensar sobre a
vida que levam, sobre os erros que têm cometido, mas acima de tudo que
pensassem sobre a sua família, afinal a mensagem principal é mesmo “pela nossa
família vamos ao fim do mundo”.
E aquelas personagens, o Salvador, a Sara,
a Helena, o Lucas e o Martim inspiram-me e fazem com que deseje que fossem
pessoas reais. Todos eles têm tantos segredos, tantos erros cometidos e no
fundo, são tão apaixonados pela vida, pela família, pelos amigos… por vezes
perdemo-nos no caminho na vida, mas há esperança, podemos sempre encontrar o
caminho de volta. Basta acreditar e lutar muito.
Foi assim que realizei o meu sonho de ser
escritora, com o apoio incansável dos meus pais e do meu namorado, que tantas
vezes troquei pela escrita durante horas e nunca reclamou por isso. Devo-lhes
tanto. Devo tanto a ele por todo o amor e paciência. Nem uma vida cheia de amor
pagará isso, mesmo assim estou disposta a passar o resto dos meus dias com ele.
Tinha escrito um livro, o meu livro.
Estava feliz e agora dava por mim a desejar poder dizer à Filipa que ela tinha
razão quando dizia que um dia eu ia escrever livros.
Quando ouvimos aquela música que diz tanto sobre nós. A Mariza bem podia ter escrito esta para mim.
«Algo me diz que a tormenta passará
É preciso perder para depois se ganhar
E mesmo sem ver, acreditar
A vida que segue e não espera pela gente
Cada passo que dermos em frente
Caminhando sem medo de errar
E creio que noite sempre se tornará dia
E o brilho que o sol irradia há-de sempre nos iluminar
Sei que o melhor de mim está pra chegar
Sei que o melhor de mim está por chegar
Sei que o melhor de mim está pra chegar»
Tal como Susana previra, as duas semanas de férias que restavam passaram num piscar de olhos. Num dia estava deitada na relva junto à piscina a aproveitar o que restava das férias e no dia seguinte já estava de mochila às costas a transpor os portões do liceu.
-Boa sorte, maninha. – Desejou Pedro,
dando-lhe um beijo na bochecha e seguindo para a sua aula.
- Para ti também. – Respondeu ela, com um
sorriso nervoso nos lábios.
Ao contrário da nervosa Susana, Pedro
estava entusiasmado - mesmo que não admitisse - por regressar às aulas. Agora
que iria começar o 11.º ano sentia-se mais adulto, mais responsável, mas também
mais assustado por saber que no final do ano letivo tinha exames para fazer. O
lado positivo é que faltavam apenas dois anos para terminar o liceu, o que por
si só o entusiasmava ainda mais.
Se os exames de final de ano já lhe
andavam a roubar horas de sono, o mesmo se podia dizer acerca de Íris, que
entrara na faculdade. Saber que não a iria ver pelos corredores diariamente
deixava Pedro um pouco desanimado, mas talvez não fosse mesmo para ser. Tiveram
um verão espetacular, divertiram-se imenso juntos e mesmo sem precisarem de traduzir
em palavras a atração que os unia, sabiam que era mútuo. Foi um pequeno romance
de verão que Pedro não se importava de prolongar pelas outras estações, mas
decidiram que seria melhor assim. Não que não confiasse em Íris, apenas achou
complicado estar com alguém que veria raras vezes e, verdade seja dita, não era
nada rapaz de namoros à distância, não percebia como isso poderia resultar. A
rapariga concordou.
Continuarem amigos não facilitou nada, mas
dadas as circunstâncias, sabia que seria o máximo que teria de Íris naquele
momento. Mesmo assim não conseguia deixar de se sentir triste cada vez que
recordava como era bom vê-la furtivamente pelo canto do olho nos intervalos das
aulas.
Enquanto isso, Susana caminhava pelo átrio
tentando perceber onde teria a sua primeira aula da manhã.
- Desculpa… sabes onde fica o bloco E? –
Susana assustou-se ao ouvir um rapaz atrás de si. Estava tão distraída a
verificar o horário que quase teve um ataque cardíaco. – Não te queria assustar
– rematou o rapaz.
- Hmm… não faz mal, estava distraída. – Ela
sorriu, sentindo-se rapidamente a corar. Puxou uma madeixa de cabelo para trás
da orelha. – Bloco E? Último à esquerda.
- Obrigada…– Agradeceu ele, baixando o
olhar.
- És novo por aqui? – Quis ela saber.
- Nota-se muito? – Ele sorriu timidamente.
– Sim. Mudanças forçadas.
Susana assentiu.
-Não fui expulso nem nada do género! –
Apressou-se ele a esclarecer.
A rapariga soltou uma gargalhada genuína: –
Nem sequer coloquei essa hipótese. Já agora… Susana – Apresentou-se,
estendendo-lhe a mão, que ele apertou delicadamente.
- Lourenço. – Sorriu. Aquele sorriso
envergonhado de cachorrinho perdido e o aperto de mão fizeram com que Susana
fosse invadida por uma corrente elétrica que lhe percorreu o corpo todo.
Nunca tivera um namorado e achava que
talvez ainda fosse demasiado cedo para começar, mas quem sabe se aquele choque
elétrico no futuro não viria a significar algo.
Depois de alguns minutos a explicar a
Lourenço onde se situava o quê, chegaram à conclusão que estavam ambos na mesma
turma.
- Fixe. Pelo menos sei que não me vou
perder. – Disse ele sorrindo, sentindo-se mais aliviado.
- Ajudo-te no que precisares. – Susana
olhou para o horário mais uma vez. – Bom, para começar bem o dia vamos ter
Físico-Química.
Lourenço torceu o nariz, revelando mais um
ponto que tinham em comum; ambos se sentiam completamente à deriva nessa
disciplina.
Enquanto os irmãos regressavam à rotina
escolar, Eva também regressava ao trabalho após uns dias de férias. Apesar de
gostar imenso do que fazia, não sentia qualquer ponta de saudade daqueles
clientes complicados, ainda menos daqueles que entravam no escritório com a
esperança que fosse algum consultório psiquiátrico ou algo do género. Fora isso
que a fizera decidir que precisava urgentemente de fazer uma visita à
biblioteca e trazer consigo um monte de livros para se distrair nas horas
vagas.
O assunto Vicente tinha duas vertentes; ou distraía-a ou fazia com que se
empenhasse mais em tudo, e ultimamente a leitura tinha sido descurada por esse
motivo. Vicente era uma história bastante complicada que poderia ter sido muito
simples se ambos se soubessem dar, mas tal não aconteceu e apenas havia um
caminho a seguir; em frente, sempre.
Eva tinha a noção de que nunca o iria
esquecer, afinal era uma pessoa que tinha feito parte da sua vida e isso
simplesmente não se apaga das memórias. Pode-se enterrar num recanto qualquer
escuro, mas não se apaga definitivamente e teria de lidar com isso para seu
próprio bem. Sabia que ele tinha sido o seu primeiro namorado, o seu primeiro
amor, mas não tinha de ser o último. Talvez levasse algum tempo a encontrar o
seu verdadeiro amor arrebatador que a levaria ao altar, talvez demorasse algum
tempo a juntar os cacos todos do coração partido, mas esse dia acabaria por
chegar, apenas não se podia prender ao passado e muito menos a uma pessoa que
saíra da sua vida definitivamente.
No fim de contas, talvez ela própria não
significasse grande coisa para ele, pelo menos não o suficiente para o fazer
querer endireitar a sua vida e entender-se com ela.
Foi com estes pensamentos e com a decisão
acertada de deitar este assunto para trás das costas que entrou na biblioteca e
o improvável aconteceu.

Na mão levava a lista dos livros que iria
procurar e que ao sair da biblioteca possivelmente teria o dobro do tamanho,
como sempre. Caminhava distraidamente entre as prateleiras de livros, lendo as
lombadas e virando o pescoço para um lado e para o outro, conforme a direção em
que os títulos estavam escritos, estava tão absorvida no seu mundo que quando
virou no corredor seguinte chocou contra um rapaz, pregando com todos os livros
que ele tinha nas mãos ao chão.
No espaço de tempo que leva uma pessoa a
sentir-se o ser humano mais desastrado do planeta e a pedir desculpa,
apressando-se a ajudar a apanhar os livros, na cabeça de Eva fizeram eco as
palavras da irmã: “Com tantas visitas à biblioteca aposto que ainda encontras
por lá o teu verdadeiro rapaz de sonho”.
Sentiu-se ridícula, não só pelo estrondo que acabara de causar, pela vergonha
que acabara de passar, mas sobretudo pelo fugaz pensamento que as palavras de
Susana deixaram para trás.
Fosse como fosse, quantos rapazes se
interessavam por leitura, mesmo? Qual a probabilidade? Uma em não sei quantos
milhões?
- Desculpa, não sei onde estava com a
cabeça. – Disse ela, atrapalhada.
-Não tem problema, também estava
distraído, acontece. – Respondeu o rapaz, que aos olhos de Eva pareceu também
um pouco envergonhado.
Um silêncio desconfortável instalou-se
entre eles até que o jovem leitor desconhecido o quebrou por fim.
-Stephen King? – Quis saber, dando uma
espreitadela aos livros que Eva tinha na mão.
- Hmm. Sim… nunca li nada dele, mas gostei
da série que foi inspirada nestes livros.
- Vais gostar. – Iria mesmo? Isso
significava o quê? Que ele conhecia o autor? Que lia o mesmo que ela? OK,
talvez a probabilidade de um em não sei
quantos milhões devesse ser estendida para um em não sei quantos bilhões ou trilhões. – Bom, tenho de ir. –
Disse ele. – Como te chamas mesmo? – Quis saber, semicerrando os olhos.
-Eva. – Disse, simplesmente.
- Bernardo. – Sorriu. – Costumas vir à
biblioteca muitas vezes, Eva?
A rapariga riu-se, uma vez mais com as
palavras da irmã a fazerem eco na sua cabeça.
-
Parece que venho as suficientes.
Com certeza Bernardo não percebera bem
aquela resposta, mas em vez de o demonstrar apenas disse:
- Então até à próxima, Eva, e cuidado para
não atropelares mais pessoas nos corredores de romance ou ficção científica.
Eva permaneceu onde estava, com os olhos
colados nas costas de Bernardo. Que raio tinha acabado de acontecer? Perguntou-se,
retomando muito lentamente a compostura.
A custo lá conseguiu chegar ao balcão onde
poderia requisitar os livros e saiu da biblioteca ainda um tanto atordoada e
acima de tudo, envergonhada. Era o desastre em pessoa, não tinha emenda. Ainda
pensou em ligar à irmã, mas reparou que pelas horas ela estaria numa aula
qualquer. O que ela própria desconhecia era que Susana também tinha novidades
para lhe contar.
- Oh, vida a minha. – Suspirou, atirando o
monte de livros para o banco do passageiro, quando chegou ao carro.
Depois de Vicente, não se interessara por
outro rapaz. Além de ser tudo um pouco recente, não achava possível que num
futuro próximo existisse alguém capaz de voltar a mexer com os seus nervos e
perguntava-se se algum dia estaria pronta, caso isso acontecesse. Sabia que era
inevitável, que um dia com certeza iria existir outro alguém tanto na vida dela
como na de Vicente, mas pela primeira vez isso não a preocupou. Talvez fosse o
seu coração - e também o bom senso - a dar sinais de que, finalmente, estava a
superar o namoro longo e por fim, falhado, com o ex-namorado. Por muito que o
tivesse amado da forma ingénua que qualquer jovem na casa dos 20 anos ama,
sabia que a história de ambos não só tinha mudado de capítulo como tinha
terminado definitivamente. Não valia mais a pena continuar a insistir, pelo
menos não poderia dizer que não tinha tentado, porque tinha.
Tinha tentado imensas vezes, mas
simplesmente já não se comunicavam como no passado. Algures no caminho, ambos
tinham mudado, tornando-se pessoas diferentes, e ela detestava a nova pessoa
que Vicente se tornara.
Bernardo até poderia ser um mafioso
qualquer bem-parecido e com bom gosto para os livros, mas definitivamente
intrigava-a por completo. Talvez fosse aquele seu ar misterioso… o destino, o karma
ou o que fosse, realmente era matreiro.
-Tenho de ir trabalhar. – Disse para com
os seus botões. Rodou a chave e ouviu o motor a trabalhar a um ritmo mais certo
que o seu pobre coração que ainda lhe latejava na cabeça.
Se havia dias que concentrar-se no que
estava a fazer era uma tremenda batalha, por incrível que parecesse, naquela
tarde foi fácil embrenhar-se no monte de trabalho que tinha pela frente,
deixando Vicente, Bernardo e tudo o resto fora dos seus pensamentos e
focando-se apenas em terminar o projeto em questão o mais depressa possível.
Adorava o que fazia, mas quando lhe caía nas mãos algum trabalho mais
aborrecido, preferia despachá-lo do que perder tempo sem fim a lamentar-se
silenciosamente.
Quando o telemóvel vibrou em cima da
secretária, dando sinal de nova mensagem, não ganhou para o susto, tão centrada
estava no trabalho que tinha em mãos. Inesperadamente, não sabendo bem porquê,
por um momento pensou que fosse alguma notícia de Filipa. Ainda mantinha essa
esperança bem acesa, embora a sua busca em nada tivesse resultado. Esperava que
Susana estivesse certa ao dizer que algum dia, mais tarde ou mais cedo se
reencontrariam, mas começava a temer pelo pior. Algo tinha acontecido, cada vez
tinha mais a certeza disso e não gostava nem um pouco dos cenários que lhe
passavam pela mente ao pensar na amiga e no que raio teria acontecido para que
ela desaparecesse do mapa durante tanto tempo. Tinha de ter acontecido alguma
coisa, aí não restavam dúvidas. Dissessem o que dissessem, algo tinha
acontecido, só não sabia o quê. Pior que isso foi quando reconheceu o número do
remetente.
Olá.
Tudo bem? Podemos falar?
-Oh não. Outra vez, não! – Disse para si
mesma.
Definitivamente o destino é tramado, por
vezes até estúpido, mas quando chama, requer uma resposta, seja ela qual for,
até mesmo quando não sabemos o que lhe responder.

Era um belo final de tarde do mês de setembro.
Eva e Susana estavam sentadas num velho tronco à beira do lago com o sol a
descer lentamente por trás das árvores. Eva estava ansiosa por chegar a casa e
partilhar com a irmã o decorrido na biblioteca naquela tarde.
Desastrada como ela era, já seria de
esperar. Susana soltou uma gargalhada ao imaginar a cena, ficando séria de
repente quando a irmã lhe falou da mensagem que tinha recebido de Vicente.
Outra vez, não… por que teimava ele em atrapalhar a felicidade da rapariga? Ela
merecia ser realmente feliz e sempre que estava mais perto de encontrar a sua
paz de espírito e a sua felicidade, Vicente aparecia para atrapalhar os planos
do destino. Já começava a irritar.
- Que achas? - Perguntou Eva.
- Lembras-te do que eu disse sobre
encontrares o teu verdadeiro rapaz de sonho numa biblioteca?
Eva assentiu
-Então confia em mim. - Susana sorriu,
travessa - Mas sobretudo confia em ti e no destino. No dia em que
acidentalmente conheces uma nova pessoa, o teu ex-namorado lembra-se de dar
notícias. Isso, maninha, é o destino a pôr-te à prova. – Fez uma pausa.
- Respondeste à mensagem?
- Não, nem vou responder. Acho que o meu
silêncio por si só será uma resposta, não?
Eva deixou aquelas palavras surtirem
efeito na sua própria cabeça e suspirou. Tinha tomado a sua decisão há algumas
semanas atrás e desta vez nada a faria mudar de ideias. Nada mesmo. Finalmente
estava livre para o que quer que estivesse à sua espera.
- E tu, o que tinhas para me contar? –
Quis saber.
-Bom…- Susana sorriu, envergonhada –
conheci um rapaz bastante interessante… e giro… da minha turma.
Eva ergueu o sobrolho, desconfiada. Já lhe
chegava preocupar-se com a sua vida amorosa e com a do irmão, também agora
Susana decidira entrar por esse caminho?
-Chama-se Lourenço, é novo na escola e
andava meio perdido. – Escondeu o rosto com as duas mãos, envergonhada. – Ai,
mana, ele tinha um ar de cachorrinho abandonado tão… querido. Via-se mesmo que
estava à deriva. É muito simpático…
-Estás a falar a sério? – Eva continuava
incrédula. Susana tinha alguns amigos rapazes, mas não passavam disso mesmo,
amigos, e nunca lhe falara em nenhum rapaz da mesma forma que lhe estava a
falar sobre Lourenço.
-É estranho, sei lá. Acabei de o conhecer,
mas a primeira impressão que tive dele foi muito boa. Parece ser uma ótima
pessoa e detesta físico-química como eu. – Soltou uma gargalhada. – Do pouco
que vi, acho que somos parecidos e poderemos vir a ser bons amigos. – Arriscou
Susana.
Eva suspirou e descontraiu os ombros ao escutar
a última frase dita pela irmã. “Poderemos vir a ser bons amigos”, amigos! Afinal ainda havia esperança de ela
não ter de se preocupar com Susana em namoricos num tempo próximo. Ou será que
devia começar a preparar-se mentalmente para isso?
Era desgastante ter dois irmãos na
adolescência e querer protegê-los de tudo e todos. Eram sensatos, sabiam tomar
as suas próprias decisões e até davam bons conselhos, mas seriam razoáveis ao
ponto de seguirem os conselhos que davam à irmã? Vai-se lá saber! Por vezes
desejava não ser a irmã mais velha e aquele era um desses momentos. Adorava os
irmãos, adorava a cumplicidade e o à-vontade que tinham entre eles para falarem
sobre os seus problemas, dúvidas e tudo o resto, mas tinha dias que preferia
ser a mais nova dos três e ainda viver na ingenuidade da adolescência,
aproveitando os tempos de escola em vez de se preocupar com a vida adulta e
tudo o que isso lhe trouxera desde então.
Ainda os miúdos desejavam ser adultos!
Soubessem eles o dilema que é gerir toda uma vida de adulto e já não voltavam a
dizer tal coisa!
Contudo, tinha de admitir que não era mau
de todo Susana começar a achar piada ao seu novo amigo… como disse ela que ele
se chamava? Lourenço? Isso! … Eva sabia que ela precisava de algo assim e
talvez a irmã fosse mais sortuda que ela no campo amoroso.
Desejava que sim, ai do fulano que
tentasse magoá-la. Não teria de se haver só com Pedro, certamente, mas também
com uma irmã mais velha galinha que vira furacão em nanossegundos quando se
trata de cuidar e proteger os seus irmãozinhos.
Sorriu.
-Quem diria… acho que já não tens dúvidas
sobre o curso que escolheste, ainda agora começaram as aulas. Ou estou
enganada? – Constatou Eva, divertida, referindo-se a Lourenço.
-Sei lá. O curso em si não deu para saber
se escolhi certo ou errado, mas pelo menos o dia de hoje valeu a pena. –
Respondeu Susana, encolhendo os ombros.
Eva encarou-a, olhos nos olhos, pegou-lhe
na mão e suavemente disse-lhe:
-Não tenhas medo, mana. Não tenhas medo do
futuro, preocupa-te em viver o agora, não sabes o que virá depois, por isso não
percas tempo a pensar no que pode ou não acontecer. Não tenhas medo se acabares
por te apaixonar pelo teu colega. Não tenhas medo de sofrer, de chorar, de
arriscar… mas vive. Sem medos, sem arrependimentos. Se te arrependeres de
alguma coisa, que seja por algo que fizeste e não por algo que querias ter
feito e acabaste por não fazer por teres medo de tentar. Por teres medo de
errar. Por isso insisti demasiadas vezes na história com o Vicente. Percebes
agora? Temos de tentar, de tentar muito, de errar as vezes que forem precisas
para ficarmos de consciência tranquila e sabermos que fizemos tudo o que
podíamos. Por vezes temos de dar cabeçadas para abrirmos os olhos por nossa
conta e risco, por muitos conselhos que nos sejam dados, vamos sempre querer
ver com os nossos próprios olhos. – Eva afagou a mão da irmã que, para não
variar, estava fria como se estivessem num dia de inverno e não no final do verão.
-Eu sei, mana. Tens razão. – Suspirou. –
Desculpa ter ficado tão chateada contigo quando voltaste para o Vicente… e
desculpa o que disse e da forma que disse. Como tua irmã devia apoiar-te nas
tuas decisões, gostasse eu ou não disso, mas pelo contrário, acho que só piorei
ainda mais as coisas e deixei-te triste. – Fez uma pausa, sem saber bem como
continuar o que tinha para lhe dizer. – É só que… ele só atrapalha a tua
felicidade. Tens algo à tua espera, mas não podes estar presa ao passado nem ao
Vicente para conseguires lá chegar.
-Porque dizes isso? Dizes apenas porque
sim ou sabes algo que eu não sei? – Finalmente ganhara coragem para questionar
as insinuações da irmã.
-Apenas sei. Confia em mim. Mais tarde
vais entender e lembrar-te-ás do que eu te estou agora a dizer.
Não adiantava de nada tentar perceber o
que ia na cabeça da irmã mais nova, ela simplesmente não se explicava. Se
pensasse muito nisso ainda acabava por ter a ideia maluca que Susana era
vidente ou lá o que fosse. Talvez o dito sexto sentido se aplicasse a ela,
afinal.
Cansada daquela conversa e tomando
consciência que a irmã se estava a tornar uma mulher capaz de lidar com o que o
futuro lhe trouxesse – não fosse ela filha da mulher de armas que era Isabel –
decidiu que estava na altura de ter uma conversa séria com ela e revelar-lhe
mais alguns pormenores da sua história que ela tanto tentava saber junto de Eva
e dos pais, sobretudo, junto da mãe que tanto sofrera para a trazer ao mundo.
- Su, sei que andas à procura de
respostas. – Disse, notando a mudança do ar que as rodeava, era como se o
cheiro a campo se começasse a desvanecer, do nada. Esperava não estar a ficar
constipada, não lhe faltava mais nada. - Não há muito que te possa dizer, que
já não saibas. Naquela altura, quando a mãe estava grávida ela ficou doente e
quase te perdemos, mas…
- ...ela não teve a culpa. - disse Susana,
completando a frase. - Eu sei, mana. Claro que a mãe não teve culpa, ninguém
teve, certo? É por isso que eu quero que a ajudes a perdoar a si própria. –
Pediu.
Eva começou a ficar confusa com o rumo que
a conversa estava a levar.
- Como assim? – Quis saber.
Susana olhou em redor e estreitou os
lábios numa linha fina como sempre fazia quando o assunto era sério.
- Não temos muito tempo…-Constatou,
olhando de novo ao seu redor, pousando por fim os olhos na irmã que se
encontrava sentada ao seu lado.
Eva abanou a cabeça, baralhada.
-Temos tempo, sim, os pais ainda não
chegaram a casa. O Pedro deve andar por aí a fazer acrobacias com a mota ou o
trator. Somos só nós as duas aqui com as nossas éguas. – As nossas éguas! De repente notou que Esperança, a égua branca da
irmã, tinha desaparecido restando apenas Faísca, que continuava a pastar ali
perto. – Onde está a Esperança? – Olhou em redor, preocupada.
- Mana, não temos tempo para isso. – Teimou
Susana, emoldurando-lhe o rosto entre as duas mãos, obrigando-a a olhá-la nos
olhos. Terias sido uma boa irmã, Eva. – Teria
sido? Então não o era? Como assim? - Acredita que eu também o teria sido,
mas não estava planeado ser assim. - Deslizou a mão pela face da irmã mais
velha.
- Su, que raio de conversa é esta? E como
é possível teres as mãos tão frias? Por amor de Deus, estamos no verão. -
Soltou uma gargalhada nervosa, esquecendo-se que ela própria tinha quase sempre
as mãos frias.
-Eu estou sempre ao teu lado, irmãzinha,
sempre estive mesmo sem saberes. Confia em mim; confia em ti. Ainda tens muito
para fazer, muito para viver. Ainda vais ser muito feliz e eu estarei aqui para
te ver sorrir, para te ver ir contra aos obstáculos que irão cruzar o teu
caminho. Estarei aqui para te ver vencer. – Beijou-lhe a testa suavemente. –
Vais encontrar um amor bom, o teu verdadeiro amor de uma vida inteira e ser
muito feliz. Não será fácil, mas irão conseguir. Mantém-te fiel a ele e ao que
vos une. Dele não desistas. Confia em mim, será alguém por quem vale a pena
lutar, todos os dias. Vai amar-te tal como tu és, com todos os teus defeitos,
mas tu, conhecendo-te como conheço, vais querer ser uma pessoa melhor para ele
e vais sempre achar que não és o suficiente. Mas és. Ele vai escolher-te e
amar-te até ao fim dos vossos dias. Não tenhas medo de te entregar, de entregar
o teu coração. Não tenhas medo de tentar nem de errar. É com os erros que se
aprende e tu já aprendeste com os teus, agora estás livre para encontrares a
tua felicidade e para realizares todos os sonhos pelos quais tens lutado.
Lembra-te de uma coisa, não terás uma vida
fácil, terás que vencer muitos obstáculos, lutar muito, irás chorar e
perguntar-te Porquê eu? e eu
pergunto-te; porque não tu? Deus dá grandes batalhas a grandes guerreiros e tu
és uma grande guerreira. Herdaste isso da mãe. Será que eu também teria sido
assim? Gosto de pensar que sim. – Lágrimas corriam pelo rosto de Eva,
totalmente confusa com aquela conversa e sem forças para falar ou protestar. –
Não chores, maninha. Sorri para mim. És a melhor irmã que eu poderia ter tido,
e tenho, ainda que eu não esteja fisicamente presente. – Susana olhou em redor,
o seu tempo estava a esgotar-se. - Fazes uma coisa por mim? – Pediu.
Eva assentiu.
- Ajuda a mãe a perdoar-se a si própria,
ela não teve culpa. Apenas não era para ser. Foi Deus que quis assim por algum
motivo. Ele sabia que tu precisavas mais dela do que eu. Se eu vivesse, talvez
ela tivesse morrido. Que seria de nós agora sem a nossa mãe? Perdoa tu também.
A quem quer que seja que culpes, perdoa. Não era para ser, apenas isso. Tens a
mãe, e isso sim, foi um milagre. O coração nem sempre perdoa, mas está na
altura de perdoares. Podes não esquecer, eu sei que não esquecerás, mas perdoa.
Ficarás mais leve e será mais fácil. Eu não irei a lado nenhum, estarei sempre
contigo onde quer que vás. Sempre estive, mesmo sem saberes.
Agora sai daqui. Vai ser feliz, vai viver
a tua vida, desapega-te do passado, perdoa quem tanto mal te fez e sorri de
cabeça erguida, sempre! És capaz de coisas incríveis, não duvides disso. Confia
em ti, no teu instinto e sê quem tu és. – A voz de Susana começava a falhar, o
seu tempo esgotara-se. – Só mais uma coisa, cuida bem da tua amizade com a
Filipa, ela está bem, mas precisa de ti, tal como tu precisas dela. Procura-a,
mas desta vez não desistas.
Eva sentiu as lágrimas correrem-lhe pelo
rosto, estava tão perplexa, tão… baralhada, nem sequer sabia o que dizer. De
repente sentiu-se encandeada pelo Sol, era uma luz tão forte e incandescente
que por momentos a cegou, levando-a a esconder os olhos com as mãos.
-Su? - Chamou - Não consigo ver nada. O
que é isto? Estás bem? – Não ouviu uma resposta - Susana! – Repetiu, num grito
que lhe ficou preso na garganta.
- Acorda, mana. Está na hora de acordares
e de ires viver a tua vida. – Ouviu Susana dizer, numa voz quase sumida, sem
nunca a conseguir voltar a ver.
De repente, tudo desapareceu. Tudo ficou
escuro e depois branco. Branco demais para ser real. Ao longe ouviu uma voz
chamar pelo seu nome, como se estivesse no fundo de um túnel.
-Eva? Eva, já está. A cirurgia correu bem,
já passou. – Disse uma voz, apontando-lhe uma pequena lanterna para os olhos.
Era um dos enfermeiros ou o cirurgião, que falava com ela, não conseguiu
perceber. Demorou alguns segundos a lutar contra si própria até conseguir realmente
abrir os olhos. Estava numa sala pintada de branco, rodeada de pessoas de uniforme
branco. Estava no hospital, recordou-se. Estava numa sala sossegada, devia ser a
sala de recobro, com um grande relógio de parede mesmo em frente da sua cama
cujo tiquetaque marcava o compasso do tempo e trouxe-lhe pedaços de flashbacks que ela não reconheceu de
imediato, de um jovem de cabelo escuro e olhos azuis com um sorriso traquina e
de uma bebé que ela pegara ao colo e mais tarde se tornara uma bonita jovem de
cabelos alourados e olhos azuis, tal como o pai. O seu próprio pai.
Quem eram aquelas pessoas? Que tinha
acabado de acontecer?
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