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• My2Book, MyBook, Quando o Coração Não Perdoa, Tudo o que Sempre Quis
Devido à quarentena, muitas pessoas ainda estão confinadas em casa e foi a pensar nelas que escrevi este post. Para quem gosta de ler e ainda não teve oportunidade de ler os meus livros "Tudo o Que Sempre Quis" e "Quando o Coração Não Perdoa", talvez esteja na altura de o fazer. 😉
"Tudo o Que Sempre Quis" ainda está disponível em formato físico e podem encomendar directamente comigo. Envio por CTT com todas as precauções necessárias.
Sinopse: «Salvador. Lucas. Helena. Sara e Martim.
Cinco jovens que se perderam algures na estrada da vida. Todos eles têm assuntos pendentes, cicatrizes e fantasmas que insistem em persegui-los onde quer que vão. Até mesmo quando, um por um, por um motivo ou por outro, se refugiam numa pequena Vila à beira-mar sem saberem até que ponto os seus destinos estão traçados.Uma história de amor, de amizade, de dor, perdão e segundas oportunidades. Mas acima de tudo, lealdade.
Ninguém é forte o suficiente ao ponto que não precise de outro alguém.
O que faria com uma noite que mudou tudo?
Até onde iria em nome do amor?»
Um livro com cheiro a mar e a Verão que promete animar os vossos dias com as aventuras e peripécias dos surfistas.
Durante anos, era tudo o que ela mais queria, até que numa noite fria de Inverno soube que a mãe estava grávida. Naquele momento Eva não precisava de mais nada, iria ter o seu pedido atendido, finalmente! Mas a vida raramente é o que esperamos, existe sempre outros planos reservados para cada um de nós e por muito que isso nos custe, por muito que doa, temos de seguir em frente e aprender a perdoar, mesmo que isso seja tudo o que o nosso coração não quer. Sobretudo, temos de aprender a perdoar a nós mesmos e agradecer a Deus pelas suas escolhas, até mesmo quando essas escolhas que Ele faz nos destroem por dentro.
Porque por muito tempo que passe, há coisas que o
coração não perdoa.
Para todas as mães que já perderam um filho e para todas as pessoas que já perderam um irmão ou uma irmã.»
Em contrapartida, "Quando o Coração Não Perdoa" já esgotou mas podem adquirir no site da euedito ou então ler online aqui no blog ou no Wattpad.
Sinopse: «Em criança, Eva tinha um desejo; não ser filha única.
Queria um irmão ou uma irmã com quem brincar. Na verdade, Eva implorava aos pais – em palavras dela – “Eu quero um mano nem que seja de barro ou da loja dos trezentos!”Durante anos, era tudo o que ela mais queria, até que numa noite fria de Inverno soube que a mãe estava grávida. Naquele momento Eva não precisava de mais nada, iria ter o seu pedido atendido, finalmente! Mas a vida raramente é o que esperamos, existe sempre outros planos reservados para cada um de nós e por muito que isso nos custe, por muito que doa, temos de seguir em frente e aprender a perdoar, mesmo que isso seja tudo o que o nosso coração não quer. Sobretudo, temos de aprender a perdoar a nós mesmos e agradecer a Deus pelas suas escolhas, até mesmo quando essas escolhas que Ele faz nos destroem por dentro.
Porque por muito tempo que passe, há coisas que o
coração não perdoa.
Para todas as mães que já perderam um filho e para todas as pessoas que já perderam um irmão ou uma irmã.»
Uma história pessoal e familiar que promete não vos deixar indiferente!
Para mais informações contactem-me!
Comecei a
minha jornada há seis anos atrás, a achar-me a rapariga mais azarada do
planeta, a rapariga a quem tudo o que pudesse correr mal certamente correria
mal. Desde então a minha vida mudou. Aquela cirurgia que eu tanto temi mudou a
minha vida, não só esteticamente como psicologicamente. Foi ali que tudo
começou e foi ali que me tornei no que sou hoje.
Senti muito, muito medo de não sobreviver
e em simultâneo senti que tinha alguém ali ao meu lado, a proteger-me, a
apoiar-me. Tenho fé nos meus anjos da guarda, repito, são eles o meu querido
avô, que o filho da mãe do cancro me levou, e a minha irmãzinha mais nova, que
nunca tive a bênção de conhecer pessoalmente mas que creio ter conhecido de
outra forma, uma forma que poucos estão dispostos a entender, mas em que eu acredito
cegamente. Acredito que haverá sempre algo mais, algo maior que nós, simples
mortais, algo para além da nossa compreensão e das nossas crenças.
Dantes eu era toda ver para crer, hoje creio mesmo sem ver, porque sinto. Porque eu
sonho e já entendi que os meus sonhos por vezes são mais do que meros sonhos,
trazendo consigo avisos, dúvidas, mas também ajudando-me a tomar decisões. Há
algo maior em que eu acredito mesmo sem conseguir explicar logicamente do que
se trata. Apenas acredito, apenas tenho fé nisso.
Demorei a perceber que a rapariga
dos meus sonhos era uma versão da adolescente em que a minha Susana se teria
tornado se Deus tivesse permitido que ela sobrevivesse. E demorei ainda mais a
perceber que os meus sonhos eram memórias reprimidas da minha experiência
enquanto estive desacordada na cirurgia graças à anestesia geral. Ela disse-me
tudo, mostrou-me tudo o que eu precisava de saber e mesmo assim, quando
acordei, não me recordava disso, daí os sonhos. Eram avisos, conselhos… era ela
a dizer-me o que eu devia fazer. Ela sabia melhor do que eu o que estava por
vir e tinha razão sobre tudo, bom, na verdade sobre quase tudo. Falhou no
pormenor de que iria conhecer o amor da minha vida, o verdadeiro rapaz dos meus
sonhos, na biblioteca. Talvez por ter deixado de lá ir tão regularmente, na
altura, ele teve de escolher outro caminho para chegar até mim. Quem sabe? Eu
não sei, mas acredito que Deus sabe o
que faz e como digo, ele nunca dorme, apenas vai descansando um olho de cada
vez.
Contudo a Susana sabia de tudo, e estava
certa quando me aconselhava a desistir da minha primeira relação. Enquanto me
dizia que o Vicente não era a melhor pessoa para mim, ela já sabia que o
Bernardo haveria de cruzar o meu caminho, mas para isso, para poder ser
realmente feliz e amada, eu tinha de abrir mão do passado, tinha de seguir em
frente. E segui. Hoje sou muito feliz e grata por tudo o que a vida me foi
dando aos poucos.
Ela também estava certa sobre a Filipa e
bem me avisou para desta vez insistir em procurá-la sem desistir. Ela precisava
de mim e eu achava que estava bem, que tinha a vida que sempre quisera ter, mas
estava longe de imaginar o que lhe tinha acontecido nos últimos anos desde a
última vez que a vira. Ela precisava de mim, mas acreditem, eu também precisava
muito de a ter de volta à minha vida, de ter uma amiga como ela presente e
disposta a dar-me na cabeça quando é preciso. Graças a Deus que desta vez a
encontrei. Estava destinado assim e já posso dormir descansada.
Hoje sinto que fechei um grande
ciclo da minha vida. Já tanto mal me desejaram, tanta inveja me atingiu e mesmo
assim eu continuo aqui, de pé. Por vezes pouco firme, mas aqui estou, sempre de
armas prontas para combater o mal, cheia de fé dentro do meu coração puro e
humilde. Perdoei tudo o que me fizeram de mal, perdoei todas as pessoas que me
magoaram, que me colocaram de parte por eu ser diferente delas, mas sabem uma coisa? Gosto de ser diferente. Vale
mais ser diferente do que comum, sabiam?
Tenho um problema desde criança que
felizmente na vida adulta aprendi a controlar melhor; sou gaga. Isso mesmo.
Gaga, como muitas pessoas deste mundo são. Mas na escola eu não via as coisas
dessa forma, e foi o facto de ter feito aquela cirurgia que, como disse, mudou
a minha vida. Aprendi a ver a vida de outra forma, a apreciá-la à minha maneira
e os outros que se f*dam.
Desculpem o palavrão, mas por vezes é
preciso. Dizem que um belo f*da-se
dito no momento certo faz maravilhas à alma. Vai-se lá entender.
Mesmo assim, eu perdoei. Perdoei essas
pessoas que gozaram comigo e me impediram de viver o meu ensino secundário como
adolescente normal. Não esqueci,
porque há coisas que o coração não perdoa,
mas perdoei da forma que pude. E sou mais feliz por isso, por ter perdoado.
Aprendi que guardar rancor só nos torna pessoas amargas, para quê? Não resolve
nada, nunca podemos mudar o que aconteceu, mas podemos e temos a escolha de
mudar o nosso presente e fazer o futuro valer a pena. É fácil? Se fosse fácil
não tinha piada. É difícil, mas são as coisas mais difíceis que valem mais a
pena, lá diz o ditado.
E ali estava eu, com o meu segundo livro
nas mãos, rodeada por uma sala cheia de pessoas, mesmo depois de tantos
obstáculos com o primeiro. Tinha pensado em desistir de vez dessa ideia de ser
escritora, deixar-me disso, mas ninguém me deixava fazê-lo. Lá está, é difícil,
dá vontade de arrancar cabelos, mas mais uma vez, são as coisas mais difíceis
que valem mais a pena viver.
Desta vez era uma história especial. Tinha
cumprido a promessa à minha mãe que um dia lhe escreveria um livro. Há muitos,
muitos anos atrás o esboço era intitulado “Nunca Desistas de Mim”, mas ficou
pelo “Quando o Coração Não perdoa”. Estava feito. Tinha escrito um livro para a
minha mãe, mas mais do que isso, tinha escrito um livro com a minha mãe, sobre
ela, sobre a minha irmã que perdemos, sobre mim, sobre as nossas vidas, as
nossas dores, as nossas lutas e as nossas vitórias, mas acima de tudo, sobre a
nossa fé e a nossa esperança.
Agora era o momento de apresentar esse
livro ao mundo, um livro bastante
especial para mim, que eu esperava que todos sentissem nos seus corações o que
eu tentava transmitir em palavras. Tinha sido escrito diretamente pelo meu
coração.
Mas como sempre, algo estava por vir.
No final da apresentação, durante a sessão
de autógrafos, uma jovem de cabelos cor de ouro e olhos cor do céu sentou-se à
minha frente e pediu-me um autógrafo.
-Olá! Como te chamas? – Perguntei eu, para
colocar o nome dela na primeira página do meu mais recente livro.
- Olá! Sou a Susana e sou a tua fã número
um! – Levantei a cabeça devagar, de ouvidos atentos. Ela sorriu para mim com
aquele sorriso que eu julgava familiar.
Num segundo tudo me veio à mente como uma
confusão de flashbacks, os meus
sonhos desde há mais de seis anos atrás… tudo, mesmo tudo veio ao de cima. Na
minha mente ecoaram as palavras “Eu estou sempre ao teu lado, irmãzinha, sempre
estive mesmo sem saberes. Confia em mim; confia em ti. Ainda tens muito para
fazer, muito para viver. Ainda vais ser muito feliz e eu estarei aqui para te
ver sorrir, para te ver ir contra aos obstáculos que irão cruzar o teu caminho.
Estarei aqui para te ver vencer.”
Pela primeira vez tudo fez sentido e ao
contrário do esperado, não tive medo do que poderia vir depois.
Por cima do ombro da rapariga vi a minha
mãe sorridente em conversa com outra pessoa que estava na fila para comprar o
livro e sorri para mim mesma. Mais afastado dela, vi o meu pai embrenhado numa
conversa com o meu namorado, Bernardo. Do outro lado, a olhar para mim com um
sorriso genuíno e um olhar cheio de carinho, vi a minha melhor amiga Filipa,
acompanhada pelo marido e pela filha. Esperava que, tal como eu, ela
encontrasse a sua paz de espírito.
Senti-me feliz. Senti-me completa. Senti
que tudo estava no seu lugar. Senti que tinha encerrado aquele capítulo da
minha vida, aliás, na verdade senti que tinha fechado aquele livro e estava de
braços e coração abertos, a postos para iniciar um novo livro, uma nova
história. Mais uma vez olhei para o Bernardo.
Talvez a próxima história a ser escrita
fosse a nossa, aquela que estávamos prestes a começar a escrever, lado e lado.
Devagar, voltei a encarar a jovem de
cabelos alourados e com um sorriso nos lábios e de olhos brilhantes respondi:
-Que bom! Fico feliz em saber isso e em conhecer-te,
Susana.
FIM

Setembro
de 2018
Carta
para a minha irmã
Minha querida irmã,
Espero que de onde quer que me estejas a
ver, estejas bem, como eu acredito que estás. Aposto que estás bem acompanhada
pelo nosso avô e acredito que ele tenha adorado conhecer-te. Serias mais uma
menina para ele mimar, para ele brincar e para tu abusares da sua paciência de
santo como eu fiz. Ele era um bom homem, como já não existem muitos. Espero que
saibas disso e aprecies a sua companhia, acredita que ele me faz bastante falta
com as suas histórias de tempos antigos, cheias de sabedoria. Mas vou-me deixar
de conversas. Tenho algo para te dizer…
Durante anos eu massacrei os nossos pais
com o meu insistente pedido para me darem um irmão ou uma irmã, uma companhia
para eu brincar. Todos os meus amigos da escola tinham irmãos pequenos e eu
também queria ter. Pedi tanto, tanto que desesperava. Os pais lá tentaram até
que conseguiram, mas Deus tinha outros planos para ti. Não tenho grandes
memórias desses tempos, mas sei que depois de ver a mãe naquele estado e de
quase a perder, nunca mais na vida pedi um irmão. Se gostava? Claro que sim. E
secretamente sempre desejei isso, sempre esperei por essa novidade, mas como nunca
mais voltou a acontecer, então eu apenas deixei de falar nisso.
Inicialmente pensávamos que serias um
menino. Não sei porquê, sempre tivemos essa sensação, talvez por eu ter preferido
ter um irmão, visto que eu era uma autêntica maria-rapaz, louca por motas, carrinhos
telecomandados e tratores de andar pelos montes de terra. Desculpa não ter
colocado em hipótese seres uma menina, mais uma menina para a família. Mesmo
assim, quero que saibas que sempre te amei mesmo sem nunca te conhecer e
amei-te ainda mais quando viemos a saber mais tarde que serias a nossa Susana.
A partir daí comecei a sonhar muito
contigo, a imaginar-te, a dar-te um rosto e uma personalidade. A partir daquele
momento comecei a pensar ainda mais em ti e em como seria a nossa vida se Deus
te tivesse poupado. E sabes? Seria incrível! Serias a minha melhor amiga, a
minha irmãzinha, serias a minha confidente… serias tudo para mim.
Quando penso em ti já não sinto aquela
mágoa que dantes sentia, pelo contrário, quando penso em ti sinto um conforto
enorme porque sei que de alguma forma estás comigo, estás a cuidar de mim como
eu devia cuidar de ti. Sei que não me abandonas mesmo quando carrego o mundo às
costas, quando me apetece mandar tudo ao ar e gritar um grande que se f*da!
Se aqui estivesses sei que me acalmavas
nesses momentos, me chamavas à razão e me davas um par de estalos se fosse
preciso. É assim que eu nos imagino; unidas, amigas e presentes na vida uma da
outra. E sabes? Quando o Coração Não
Perdoa, a mente também não perdoa, mas de alguma forma foi contigo que aprendi
a perdoar. Não consigo perdoar tudo, mas aprendi a perdoar Deus pelo que ele me
tirou e a dar-lhe graças pelo que me deu ao longo da vida para me compensar, só
que nada compensa a tua ausência nas nossas vidas. Estarás sempre presente no
nosso pensamento e nos nossos corações, passe o tempo que passar.
Segui os teus conselhos que me foste
dando sorrateiramente, sem eu dar por isso, e descobri um novo amor. Valha-me
Deus, podias ter avisado que não seria assim tão fácil, que tem dias que não
sabemos o que fazemos juntos, mas confesso que mesmo assim tem valido a pena
cada dia que passo ao seu lado. Sei que ainda nos estamos a adaptar um ao outro
e tenho esperança que tenhas razão quando dizias que seria amor para toda a
vida.
Reencontrei também a Filipa, desta vez não
desisti. Tu bem me indicavas o caminho a seguir, discretamente, e então
encontrei-a quando menos esperava, mas sem dúvida quando mais precisava.
Prometo que desta vez farei a coisa certa.
Devo-lhe isso e tu, tal como eu, sabes que é verdade. Desisti uma vez da minha
melhor amiga, não o farei uma segunda vez, prometo. Tal como sabes, ela sempre
foi o mais próximo que eu tive de uma irmã e a sua amizade conforta-me e
ajuda-me muito, tal como uma verdadeira irmã. Como bónus ganhei uma sobrinha
emprestada, reguila e cheia de vida. Que podia eu pedir mais?
Se eu pudesse pedir qualquer coisa pedia-te
a ti, aqui ao meu lado, ao lado dos nossos pais. Mas não é possível, por isso
peço apenas que continues a acompanhar-nos, a vir-nos visitar de vez em quando,
a confortar-nos e peço ainda que nunca nos abandones. Cuida de mim, irmãzinha,
e cuida dos nossos pais como eu sei que tens feito. Como seria possível que o
nosso pai caísse de uma altura de praticamente quatro metros, num mergulho
certeiro, esfolando apenas um cotovelo? Continuo a considerar isso um milagre.
Sei que estavas lá, confio em ti, minha menina.
Obrigada por tudo, obrigada por, - ainda
que espiritualmente, -fazeres parte das nossas vidas. Daqui a muitos anos
iremos conhecer-nos finalmente. Espera por mim e enquanto isso vou fazer o que
me pediste e vou viver a minha vida, fazer tudo o que ainda tenho para fazer,
lutar pelos meus sonhos, vou levar a nossa história a muitos corações e vou
tentar ser mais feliz por nós as duas.
Estás sempre no meu coração e no meu
pensamento, sempre.
Um beijinho e um abraço apertadinho
cheio de amor,
Da tua irmã mais velha,
Ana Rita
“Eva”

Setembro
de 2018
Carta a um anjo-da-guarda
Querida filha Susana – seria este o teu
nome -, como tudo seria diferente se em vez de teres partido tu tivesses
nascido, seria lindo, eu e o pai passaríamos a ter duas meninas reguilas porque
era assim que ia ser certamente, tu, com diferença de seis anos da mana, deviam
ser frescas!
Imagino muitas vezes como seria a
tua relação com a tua irmã, até o pai por vezes diz “Se não tivéssemos perdido
aquele bebé agora estava aqui sentado, ou fazia isto ou aquilo”. A nossa vida
mudava radicalmente e em vez de três passaríamos a ser quatro. Eu tinha mais
trabalho, mas nunca me importaria, queria mesmo era que estivesses aqui
connosco, eu sei que estás, mas queria-te fisicamente para te poder ver,
abraçar, acarinhar, beijar, dar todo o amor de mãe que dei à tua irmã Rita. Queria
muito ter-te conhecido. Imagino-te parecida com ela, meiga, carinhosa, mas ao
mesmo tempo, espontânea.
Hoje, passados 19 anos, já me
habituei, mas ao mesmo tempo sinto-me incompleta porque gostava muito de ter
mais filhos, mas depois de te ter perdido já não houve mais esse desejo de
engravidar e quando veio de novo essa vontade, já não aconteceu.
Por isso, querida filha, estejas
onde estiveres, sabes que te amo como se estivesses comigo e por favor, quando
me vieres visitar, chama sempre pela mãe, porque assim sei que estás comigo e
para mim é um grande consolo.
Um
grande beijo da mãe que te ama mesmo sem te ter conhecido.
Para sempre a tua mãe Carmita
E
se a vida lhe desse uma segunda chance?
Uma década
atrás eu tinha uma melhor amiga que era como uma irmã para mim, a irmã que eu
nunca tive, a Filipa.
Éramos inseparáveis na medida do possível,
visto que estudávamos em escolas diferentes. Mesmo assim a nossa amizade
manteve-se durante muitos anos, até que a nossa estupidez da adolescência
interferiu. Na verdade, a culpa foi mais minha do que dela, dei ouvidos a quem
não devia, deixei que me toldassem a razão.
Devia ter ouvido o meu coração. Devia
saber que eu conhecia melhor a Filipa do que as pessoas que tão mal dela me
falavam. Eu devia saber, e no fundo sabia. Mas era uma adolescente estúpida que
ia facilmente na conversa dos outros, na conversa de pessoas que eu julgava que
eram meus amigos, quando na verdade a minha única verdadeira amiga era a Filipa
e até isso eu tinha deixado ir. Não foi fácil para mim, nunca foi.
Eu sabia que ela precisava de mim, do meu
apoio e da minha amizade e por saber que a abandonei é que me senti sempre tão culpada.
Senti-me mal comigo mesma durante anos, até há bem pouco tempo. O ensino
secundário não foi fácil para nenhuma das duas, tanto mais que anos depois e
por ironia do destino acabámos na mesma turma quando já não nos falávamos.
Podíamos ter aproveitado isso, não? Podíamos ter feito as pazes, podíamos ter
sido o pilar uma da outra como outrora fôramos, mas havia demasiadas pessoas à
nossa volta, demasiado ruído de fundo e
os anos foram passando.
Todos os dias a via e todos os dias me
culpava um pouco mais, pois nessa altura já tinha aberto os olhos e já tinha
tomado consciência que a culpa era minha, toda minha. Nunca devia ter dado
ouvidos àquelas pessoas, devia ter confiado mais nos meus instintos, mas não
confiei. Como é que agora chegaria até ela e lhe pediria desculpa? Queria
fazê-lo, mas por algum motivo nunca consegui.
Quando ela faltava às aulas eu tremia por
dentro. A Filipa era uma pessoa… complicada, na medida em que sofria de depressão
já há alguns anos, a sua infância não tinha sido fácil e por várias vezes tentara
o suicídio. Bastava ela chegar mais tarde à primeira aula para eu temer que
tivesse cometido alguma loucura e isso assustava-me tanto que quando ela
entrava na sala dava por mim a respirar fundo, sem ter dado conta que retivera
a respiração.
Nunca ninguém entendeu a nossa amizade por
sermos tão diferentes uma da outra, ninguém percebia porque precisava ela de
mim e eu dela. Para mim era como uma irmã mais velha, para ela eu era uma das
poucas razões que tinha para continuar a sobreviver um dia de cada vez.
Perceberam agora? Eu sentia-me culpada por
a abandonar porque me sentia como se estivesse a empurrá-la para um precipício.
Era eu que a puxava para trás quando ela queria saltar. Nunca dei conta disso
até ao dia em que uma vez me olhara nos olhos e me dissera “Salvaste-me.” Nunca
entendi o que raio tinha feito para a salvar, nunca fizera nada de mais. Então,
entendi… bastava eu lá estar quando ela precisava. Bastava a minha amizade e eu
deixei que tirassem isso dela, de nós.
Felizmente ela sempre teve forças para
suportar o seu dia-a-dia mesmo sem mim, mas isso não me ajudava em nada a
sentir-me melhor. Então o tempo continuou a passar ano após ano até que chegou
o dia de sairmos pela última vez pelos portões do liceu e deixarmos tudo para
trás. Eu deixei. Fiz uma promessa a mim mesma e fechei aquele ciclo mal pus os
pés no mundo real. Precisava disso, precisava de esquecer que aqueles três anos
tinham existido sequer. Mas a culpa continuava lá, a moer-me por dentro sempre
um pouco mais.
O meu último dia de estudante foi também o
último dia em que vi a Filipa durante os seis anos seguintes.
Esqueci tudo o que o liceu me trouxera,
não saí de lá com uma mão cheia de amizades para a vida nem nada do género.
Apenas queria encerrar aquele capítulo da minha vida, mas houve sempre algo que
não me deixava seguir em frente e eu sabia o que era: tinha abandonado a minha
melhor amiga, a única pessoa que não merecia isso.

Depois de terminar o liceu vim cá para
fora cheia de motivação para começar uma vida nova no mundo real, no mundo do
trabalho. Queria tanto encontrar algo para fazer que não pensava no resto. Não
pensava no quão duro tinha sido o secundário para mim, apenas pus isso para
trás das costas e tentei pôr um sorriso no rosto, decidida a seguir em frente e
a fazer algo da minha vida.
Nos primeiros meses foi fácil de suportar,
não pensava onde estaria a Filipa nem o que estaria a acontecer com ela, estava
demasiado dedicada à minha vida, mas aquele sonho em que a minha irmã me
dissera que a Filipa precisava de mim não me saía da cabeça. Mais tarde algo me
impeliu a tentar saber notícias dela.
Tinha ido para outra terra, foi o que me
disseram. Arranjaram-me um número dela, mas por algum motivo nunca obtive
resposta. Desisti. Se quisesse falar comigo daria notícias, talvez estivesse
mesmo chateada comigo e com razão.
O tempo foi passando, conheci o Vicente e
arranjei trabalho em part-time, mas sentia-me
incompleta.
Mais uma vez algo me fez procurá-la
novamente e mais uma vez sem sucesso. Começaram-me a dizer que não tinham
notícias dela, que nunca mais a tinham visto. Aí comecei a ficar preocupada, esperando
que pelo menos ainda estivesse viva, onde quer que estivesse.
Os anos passaram, a minha relação com o
Vicente terminou e sempre que eu tentava saber algo da Filipa a resposta era
sempre a mesma: Não sei nada dela. Lá
pelo meio consegui um novo contacto dela e mais uma vez fiquei sem resposta.
Então decidi que estava na altura de seguir a minha vida e deixá-la seguir a
dela.
Talvez não quisesse mesmo falar comigo nem
ouvir o que eu tinha para dizer. Paciência…
Conheci o Bernardo, comecei a ser
realmente feliz e a sentir-me completa, mas aqueles sonhos incomodativos
continuavam. Queriam-me dizer algo que eu não estava a conseguir entender sobre
a Filipa.
Deixei que o tempo passasse e esqueci o
assunto até que quando menos esperava, mas quando mais precisava, encontrei-a
por acaso. Naquele dia eu estava perdida na minha vida, na verdade há um ano
que andava perdida sem saber o que fazer, mas aquele dia fora muito complicado
para mim. Tão complicado que não notei que era obra do destino. Tanto eu tinha
pedido que ali estava ela, à minha frente. E tudo o que dissemos foi “Olá, tudo
bem? Adeus”. Estúpida! Eu continuava uma estúpida que não via o que tinha à
minha frente.
Era o que eu tanto tinha pedido a Deus;
saber que ela estava viva, ter a oportunidade de lhe pedir desculpa por tudo
para poder dormir descansada, sem peso na consciência. Mas não, limitei-me a
uma frase e a sair porta fora, mais uma vez. Só que eu vi um carrinho de bebé
junto dela, isso tocou-me e foi uma das razões que mais tarde me levaram a
fazer o que fiz. Eu já tinha sabido que ela tinha uma menina por outra pessoa,
a mesma que me dera da última vez um contacto mudo da Filipa.
Durante anos achei que ela se tivesse
evaporado, tivesse recomeçado a sua vida noutro lado e afinal ela estava ali,
na mesma terra de sempre. Não sabia por onde tinha andado, não sabia se estava
realmente bem, mas sabia que tinha seguido em frente, tinha uma filha e devia
estar feliz, era o que eu mais desejava para a minha irmãzinha emprestada; que
fosse feliz!
Ela estava bem, achava eu, não precisava
de mim, por isso, deixei as coisas como estavam. Preferi não remexer mais no
passado. Estava cansada disso, de andar a remexer no passado em vão, só para
sofrer um bocadinho mais.
A partir daí os meus sonhos começaram a
ser mais intensos, como um aviso de que ela precisava de mim, que tinha de a
encontrar e não podia desistir desta vez. Inicialmente não fiz caso disso, eram
apenas sonhos, mensagens, memórias reprimidas, o que quisessem chamar. Paciência,
ela não queria falar comigo, então eu não iria insistir. Ponto final. Só que eu
não dormia sossegada e novamente a minha culpa emergiu.
Eu
tinha-a abandonado, devia-lhe uma justificação e um pedido de desculpas, o que
ela fizesse com isso dependeria dela, não de mim. Podia mandar-me bugiar, mas
pelo menos eu devia tentar, devia-lhe isso e devia isso a mim própria, para
tentar encontrar alguma paz de espírito. Depois dela eu nunca mais tivera uma
verdadeira melhor amiga, muito menos alguém que eu pudesse chamar irmã. Então,
movida por uma nova e renovada esperança, alguns meses depois, dei início a uma
busca louca por ela. Desta vez iria encontrá-la, desse por onde desse, levasse
o tempo que levasse. Nem que fosse a última coisa que eu fizesse na vida, ela
iria ouvir o que eu tinha para dizer, era este o meu pensamento enquanto, por
outro lado, temia o que iria ouvir de volta.
Será que desta vez pelo menos iria
encontrá-la? Tivera a minha oportunidade e não a aproveitara. Teria a mesma
chance duas vezes?

Já não sabia mais o que fazer, era a minha
última oportunidade, a minha última tentativa. Era isso ou montar acampamento à
porta de casa da mãe dela, então decidi escrever-lhe uma carta e enviar para a
morada da casa da mãe. Talvez tivesse sorte. A carta dizia o seguinte:
“Olá
querida,
Peço-te
que leias esta carta até ao fim, já que é a minha última oportunidade de te
encontrar.
Ando
à tua procura há algum tempo, pergunto por ti a todas as pessoas que me ocorre
que possam ter mantido contacto contigo e nada! Mandei mensagem à tua mãe e à
tua irmã no Facebook para tentar saber algo de ti, mas não tive resposta. Até
que esta noite sonhei que recebia uma carta tua em resposta a uma que eu tinha
enviado. Se me respondeste então eu tive de enviar uma primeiro, certo? Por
isso, aqui estou eu. Esta é a última coisa que me ocorre, a minha última
tentativa, não sei mais o que fazer para te encontrar.
Mas
vou começar pelo início, ou pelo menos tentar.
Primeiro
que tudo, desculpa.
É
por isto que tenho procurado por ti há tanto tempo, para te pedir desculpa. Sei
que já vou tarde. Sei que nos encontrámos de passagem e eu não percebi que
tinha o que queria ali à minha frente, tinha-te encontrado, mas naquele momento
estava demasiado perdida na minha vida que tem andado de pernas para o ar para
perceber isso. Para perceber que tanto pedi que te colocaram à minha frente sem
eu dar por isso.
Há
seis anos que não sei nada de ti. Há seis anos procurei por ti, mas não tive
sucesso e acabei por desistir. Agora procuro por ti novamente e se não
conseguir ter notícias tuas vou desistir e deixar isso para o destino. Sei que
não terei a mesma sorte duas vezes, mas quem sabe? Talvez quando menos esperar
os nossos caminhos se cruzem. Mesmo que desista, não te irei esquecer. Nunca
esqueço. Todos os anos no dia do teu aniversário eu desejo-te um feliz dia e
espero que o vento te leve as minhas palavras.
Foste
a melhor amiga que tive na vida toda, a irmã que nunca tive, e dói-me tanto
saber que hoje a tua menina poderia chamar-me tia, eu poderia amá-la como uma sobrinha,
mas a minha oportunidade de ter isso já passou. Já perdi o direito a isso. Mas
não me importo, desde que continues a ler esta carta até ao fim e saibas tudo
aquilo que eu tenho para te dizer e que queria dizer pessoalmente, mas não te
encontro.
Repito,
foste a melhor amiga que tive na vida toda, mas eu sou parva, como tu sabes.
Tenho uma coisa boa, mas não me contento com isso, quero sempre melhor, quando nem
sempre é realmente algo melhor. E já aprendi isso. Já aprendi a amar e a cuidar
do que tenho, era isso que devia ter feito há anos atrás quando se colocaram no
meio da nossa amizade e eu deixei. Sinceramente, não sei porque deixei. Sou
burra e parva, isso já sei. Mas isso não é desculpa.
Há
anos atrás eu não sabia o que sei hoje. Tanta coisa aconteceu, a vida aconteceu.
De vez em quando ainda sonho com a minha irmãzinha, com os abraços que me
davas, com o carinho que tinhas por mim e com a amizade que nos unia.
Desculpa.
Por favor, desculpa. Por tudo. Podes não perdoar agora, pode levar tempo, mas
se algum dia entenderes que me devas perdoar por tudo, ficarei muito feliz por
isso. Podes não querer voltar a falar comigo, mas se pelo menos me puderes
perdoar, agradeço.
Tenho
tanto para te contar. Tanta coisa para te mostrar, acima de tudo, queria
mostrar-te que cresci, que sou uma mulher de 25 anos que em seis anos foi ao
inferno e voltou. Superei tanta coisa.
Queria
mostrar-te que sou uma pessoa diferente, grata pelas lições que a vida me deu e
a morrer de saudades da minha irmãzinha.
Podes,
por favor, desta vez dar sinal de vida? Nem que seja só para eu saber que estás
bem. Podes-me mandar passear, mas pelo menos deixa-me saber que estás bem.
Deixa-me ver-te uma última vez se preferires que seja mesmo a última. Deixa-me
abraçar-te novamente só para saber que a minha busca não foi em vão.
Tenho
muito mais para te dizer, mas irei guardar isso para mim junto com a esperança
de um dia to poder dizer pessoalmente.
Esta
é a minha última oportunidade de tentar chegar a ti, espero que esta carta te
chegue às mãos e a tenhas lido até ao fim. Guardo-te sempre num cantinho
especial do meu coração junto do desejo que um dia a nossa amizade possa ser
reconstruída com paciência e com o tempo.
Dá
notícias, sim?
Tenho
saudades tuas, maninha.
Desejo-te
o melhor que a vida tem para te oferecer. Com um grande beijinho,
Eva.”
Estava feito, não podia fazer mais nada.
Movida por uma esperança renovada, fechei
o envelope e pedi a Deus e aos meus anjinhos da guarda que me ajudassem, que me
dessem um sinal só para saber que a Filipa estava bem.
Mal fechei o envelope algo me surgiu na
mente. Naqueles anos todos havia uma amiga da Filipa a quem nunca me tinha
lembrado de perguntar se sabia algo dela. Não demorei muito a ter nas minhas
mãos um contacto da Filipa. Enquanto escrevia aquela mensagem os meus dedos
tremiam, que raio estava eu a fazer? Tinha abandonado a minha melhor amiga há
mais de seis anos e agora estava praticamente a rezar para que me perdoasse?
Nem eu mesma me perdoaria no lugar dela.
Que porcaria fiz eu? Ela não merecia. Não
merecia ter-me na sua vida, estava melhor sem mim.
Era mãe, tinha recomeçado a sua vida e não
precisava da minha amizade nem do meu pedido de desculpas para nada. Ela não
precisava de mim, por que raio continuava eu a insistir nisso? Porque apenas
não sabia desistir? Deixar tudo como estava? Era mais fácil, não era?
Mas não era o que eu queria. Mensagem
enviada. Figas feitas. Uma noite mal dormida à espera de uma resposta que nunca
chegou.
No outro dia de manhã saí da cama cedo,
disposta a ir pôr a carta no correio. Não havia mesmo mais hipótese nenhuma, só
aquela carta me poderia levar a ela. Só aquela carta lhe poderia dizer o que eu
não fora capaz de dizer anos atrás.
Antes de enfiar o envelope na ranhura da
caixa do correio pedi mais uma vez a Deus e aos meus anjinhos que me ajudassem.
Desta vez tinha de dar certo, caso
contrário teria de arranjar forma de esquecer o assunto e esperar apenas que
ela estivesse bem.
Pouco mais de dez minutos depois de
colocar a carta no correio, o meu telemóvel tocou e tive a surpresa da minha
vida.
Fiquei sem chão, o meu coração saiu do
peito e andou aos saltinhos sabe-se lá por onde, até o sangue correu mais
depressa pelo meu corpo todo.

Pouco passava das nove da manhã quando o
meu telemóvel tocou com um aviso de mensagem. Eles ouviram-me mais depressa do que eu esperava. Na noite anterior
tinha demorado duas horas a escrever uma carta que acabara de colocar à pressa
no correio antes de ir trabalhar e assim, do nada, tenho uma mensagem da Filipa
no meu telemóvel. O meu mundo parou. Naquele momento só me apeteceu chorar.
Não me lembro bem da primeira mensagem que
lhe enviei em resposta, mas sei que rapidamente estava a escrever uma longa mensagem
a pedir-lhe desculpa por tudo. Queria fazê-lo pessoalmente, mas antes que ela se
evaporasse de novo, decidi que iria ser dito assim mesmo, antes que perdesse a
oportunidade mais uma vez. Falámos durante praticamente o dia todo e disse-lhe
que em breve iria chegar uma carta a casa da mãe dela. Uns dias depois
combinámos ir beber café e dei por mim a ficar nervosa.
Lembrava-me da nossa amizade juvenil e
despreocupada, mas como seria agora tantos anos depois? Como seria falar com
ela cara a cara passado tanto tempo? Ela tinha-me perdoado, tínhamos seguido em
frente, mesmo assim eu ainda continuava chateada comigo mesma por a ter
abandonado e acho que ficarei sempre com esse sentimento, pois hoje sei pelo
que passou, o que teve de viver, e eu sem lá estar. Será que eu podia ter
evitado essas coisas? Talvez sim, talvez não. Mas naquele final de tarde, assim
que a vi ao longe a empurrar o carrinho de bebé, eu soube que o destino é um
grande filho da mãe imprevisível e ao mesmo tempo, quando quer, consegue ouvir
as nossas súplicas.
Quando cheguei mais perto e a abracei
soube porque tinha de a encontrar, era o dito destino a dizer-me que ela ainda
precisava de mim.

Eu sou curiosa por natureza e adorava
saber o que tinha acontecido a Filipa para ela desaparecer do mapa durante
tanto tempo, mesmo assim prometi a mim mesma que nunca lhe iria fazer perguntas
sobre o que acontecera nos últimos seis anos. Algo me dizia que alguma coisa de
grave tinha acontecido, contudo preferi não a questionar sobre isso e deixar o
tempo correr, quando se sentisse preparada e se me quisesse contar, ela
contaria.
Precisava que ela confiasse em mim
novamente e confesso, tinha medo que o meu pressentimento estivesse certo, que
tivesse acontecido com ela o que eu deduzi e isso assustava-me de morte.
Os dias foram passando, as semanas também
e fui conhecendo alguns pormenores superficiais dos últimos anos da vida dela.
Soube que no final do liceu tinha ido trabalhar nas limpezas para um hospital a
alguns quilómetros de casa, onde acabou por se apaixonar por um rapaz, acabando
por viver com ele cerca de um ano.
Ao início era tudo ótimo, compraram um bar
e tinham uma boa casa, até que devido ao vício dele pela droga perderam tudo o
que tinham, levando a Filipa a tentar o suicídio com comprimidos.
Quando finalmente saiu do hospital, voltou
para casa onde vivera com a mãe, apenas com algumas roupas, deixando tudo o
resto para trás.
Depois de ter perdido um ano com
esse rapaz, começou a trabalhar noutro local enquanto tirava a carta de
condução. Foi nesse emprego, numa fábrica, que conheceu o André, o atual
marido. Eram os melhores amigos, disse ela. Contudo, depois de tirar a carta
conheceu um novo rapaz, apaixonando-se perdidamente por ele e pelos seus olhos.
Ele fê-la acreditar que lhe arranjava emprego na área em que ela estudara se a
Filipa fosse viver com ele, e ela foi.
Na verdade, aquele rapaz de olhos
bonitos não passava de um monstro que a fechou numa casa longe de tudo, obrigando-a
a trabalhar para ele. Logo aí tive um pressentimento de qual seria esse
trabalho e admito, saber isso magoou-me imenso.
Será que eu poderia ter evitado alguma coisa
se não tivesse abandonado a minha melhor amiga?
Mas agora nada me restava fazer
senão ouvi-la atentamente, sem lhe fazer perguntas, tal como prometi. Eu não
precisava de as fazer, a Filipa parecia ler-me os meus pensamentos e respondia
a tudo a que eu não tinha coragem de perguntar.
Silenciosamente perguntei o que lhe tinha
passado pela cabeça, por que raio nunca se tinha ido embora, e ela respondeu-me
com mais uma parte da história que me chocou e ao mesmo tempo me tocou no fundo
do coração. Ficou com ele por ser burra, dizia ela, e também porque ele ameaçou
a sua família.
André, o seu melhor amigo naquela altura, por
várias vezes a tentou ajudar, mas para o proteger, teve de o afastar da vida
dela. Passou-se um ano e aquele monstro acabou por se apaixonar pela Filipa,
impedindo que lhe tocassem, deixando-a apenas a atender os telefones. Ela
perdeu até a noção do tempo.
Certo dia, André ofereceu-lhe um carro
para ela sair daquele mundo, o mesmo carro em que Filipa mais tarde quase morria
num acidente, levando a vida de uma colega que a acompanhava naquela noite.
Ironia do destino, foi graças a esse acidente
que Filipa escapou daquela solidão, daquela casa, daquele tipo, daquilo tudo… mesmo
assim, de vez em quando o rapaz lá aparecia na vida dela, e ela, ainda cega
pelo amor que julgava sentir, deixava-se ir nas conversas dele. Até mesmo
quando ele a agredia, ela achava que era ele o homem da sua vida.
Finalmente abriu os olhos e aproveitou uma
oportunidade que lhe surgiu para fugir dele de vez, aceitando um emprego na
outra ponta do país, mas ainda não foi desta que a sorte lhe sorriu. Trabalhava
dia e noite e mal lhe pagavam, pelo que a Filipa decidiu voltar para casa da
mãe e para o emprego na fábrica, onde acabou por se reencontrar com André. O
destino decididamente sabe o que faz e no tempo certo, Filipa e André acabaram
por se apaixonar e terem a sua história de amor, tendo sido ele o seu pilar
quando a avó dela partiu.
Doeu-me imenso saber tudo por que ela
passara sem eu lá estar para a ajudar ou talvez, quem sabe, evitar que certas
coisas acontecessem. Doeu mesmo muito. Mas como já disse, infelizmente não
podia mudar nada do que ela vivera, apenas podia desta vez estar lá para tudo o
que ela precisasse.
O
tempo foi passando e depois de saber a sua história decidi, indiretamente,
fazer-lhe a única pergunta que podia ter feito e da qual eu mais temia a
resposta. Temia estar certa na minha suspeita e o meu receio tinha fundamento.
Sem me deixar formular a pergunta - porque nem eu própria sabia como lhe
perguntar uma coisa daquelas – ela confirmou o tipo de emprego que o monstro a
obrigava a ter e eu fiquei sem chão.
Senti-me devorada por uma enorme raiva
contra a pessoa que lhe fizera mal, juntando à raiva que já sentia do indivíduo
que a violara durante o ensino básico, era ela ainda uma miúda. Fomos amigas
durante anos e só agora eu sabia disso e o meu primeiro instinto foi
protegê-la, como sempre fizera em adolescente. Sentia que tinha de cuidar da
minha irmãzinha mais velha. Mesmo não sendo de sangue era a única irmã que eu
conhecia, a minha melhor amiga e deixava-me de rastos saber aquilo por que
tivera de passar. Que raio, que mal a
rapariga tinha feito para ter tanto azar na vida? Não bastava já o sofrimento
que tinha tido antes disso tudo? O facto de ter um pai ausente e uma depressão
desde miúda? Não bastava? Eu tinha as minhas lutas, mas ela tinha o dobro
delas, certamente. Na pele dela duvido que eu aguentasse viver metade do que
ela viveu. Mais do que eu, a minha melhor amiga era e continua a ser verdadeira
e metaforicamente uma mulher de armas.

Era
um belo final de tarde de setembro ainda com aquele calor de verão que insiste
em ficar mais um tempo e ali andávamos nós, a fazer a nossa caminhada. Tinha
sido a forma de pormos a conversa em dia algumas vezes por semana, enquanto eu
aproveitava as caminhadas para lutar contra um problema de saúde que me tinha
surgido há um ano atrás. Estávamos as duas a tentar seguir com as nossas vidas
e aqueles momentos faziam-nos bem por vários motivos. Apesar de tudo, acho que
ainda nos estávamos a habituar a ser amigas de novo, à presença na vida uma da
outra. Tinham-se passado muitos anos sem nos falarmos e era como se
estivéssemos quase a começar de novo, mesmo que aquela cumplicidade de melhores
amigas continuasse por ali a pairar sobre nós.
Eu continuava a meter-me com ela, a gozar
com ela, e ela continuava a rir-se disso como se nada fosse, como se nada
tivesse acontecido, como se aqueles seis anos não tivessem existido.
-Desculpa… por tudo. – Pedi-lhe mais uma
vez, no meio de uma das nossas conversas.
-Não tens de pedir desculpa, éramos
duas crianças e não sabíamos nada da vida. – Respondeu, despreocupada.
- Prometi nunca te fazer perguntas
sobre o que aconteceu contigo, sabia que algo muito mau tinha de ser, mas posso
perguntar-te uma coisa?
- Claro, sabes que sim. – Fez uma
pausa. – E obrigada por me teres dado tempo e espaço.
Sorri de volta. Era o mínimo que eu podia
ter feito. Sabia que se ela quisesse que eu soubesse a sua história, ma
contaria no devido momento.
-Se tivesses de aconselhar alguém,
que mensagem retiras do que te aconteceu durante estes últimos anos? –
Perguntei, com a minha veia de escritora a palpitar, já cheia de ideias para
inserir a história dela, a sua lição de vida, no meu próximo livro. Talvez
pudéssemos, juntas, ajudar a prevenir alguma situação parecida que acontecesse
a outra pessoa.
Filipa olhou para as mãos, procurando as
palavras certas. Mesmo sem me deixar ver os seus olhos, eu podia adivinhar uma
lágrima teimosa. Eu própria tinha os olhos rasos de água.
-Espero que as outras mulheres não se
deixem enganar por falinhas mansas ou por olhos bonitos pois, por detrás desse
lindo olhar pode estar um monstro e o mal não acontece só aos outros. Quero que
acreditem no destino, o verdadeiro amor é só um e por mais que fujamos dele por
ele ser o nosso melhor amigo, acabamos sempre por ficar juntos.
Respirei fundo e sorri-lhe.
-Maninha, como eu digo, és uma
verdadeira mulher coragem. – Tentei fazê-la sorrir e acreditar que agora estava
tudo bem, que toda aquela história tinha passado, mas eu sabia que não era
verdade. Sabia que ainda olhava por cima do ombro, com medo, ainda mais agora
que era mãe de uma menina, filha de André, aquele que em tempos idos ela
afastara para o proteger.
Sabia que precisava de mim para sair
daquela solidão, sabia que precisava de um ombro amigo para chorar, para
desabafar e partilhar os seus momentos bons e menos bons. E mais do que nunca,
eu soube que nunca mais iria abandonar a minha melhor amiga, muito menos agora
que tinha uma sobrinha emprestada, linda de morrer.
- Sabes Eva, eu sofri muito quando
deixámos de ser amigas, não percebia o porquê, mas não te podia forçar a ser
minha amiga, embora desconfiasse do motivo pelo qual me abandonaste. Mas não
podia fazer nada, não podia mudar o que te ia na cabeça nem o que te diziam
sobre mim. Tu acreditaste naquelas pessoas, fizeste a tua escolha, mas também
foi opção tua nunca teres desistido de me procurar até que me encontraste ao
fim de tantos anos. Acredito que desta vez ninguém nos vai separar nem estragar
a nossa amizade, no fundo, sempre fomos as melhores amigas e irmãs.
De repente algo me veio à mente, algo dito
pela minha irmã Susana nos meus sonhos “cuida bem da tua amizade com a Filipa,
ela está bem, mas precisa de ti, tal como tu precisas dela. Procura-a, mas
desta vez não desistas. “. Eu não
desisti, não, desta vez eu não tinha desistido, tinha insistido e tinha
resultado. Desta vez eu não desiludira ninguém. Tinha honrado o pedido da minha
irmã e tinha procurado e encontrado a minha melhor amiga que precisava mais de
mim do que eu julgava. Susana sabia de tudo o que viria a acontecer. Como? Não
sei, mas ela sabia e disse-me tudo o que eu precisava de saber mesmo sem eu
entender o que estava a acontecer e fora graças a ela que eu tinha chegado até
aqui. Foi graças a ela que cheguei até ao Bernardo e encontrei nele tudo o que
eu procurava, todo o amor e carinho que eu precisava. Foi graças a ela que cheguei
até à Filipa, tantos anos depois, quando tudo indicava que nunca mais a iria
encontrar.
Susana sabia. Ela sabia de tudo.
Perdi a minha irmã há quase duas décadas e
mesmo assim ela cuidava de mim, quando devia ser eu a cuidar dela.
Olhei para a Filipa, olhos nos olhos e
sorri-lhe timidamente.
-Sim, sempre fomos as melhores amigas. –
Respondi.
E naquele instante fiz mais uma promessa
silenciosa, nunca mais iria desiludir a minha melhor amiga nem a minha irmã
Susana, o meu anjinho da guarda que tão bem me protegia e tão bem me queria.
Segunda Parte
2018
Há
seis anos atrás fiz uma cirurgia e desde então a minha vida nunca mais foi a
mesma. Por vezes tenho a sensação de que alguém me persegue, chego mesmo ao
ponto de olhar por cima do ombro. Já para não falar dos sonhos estranhos que
comecei a ter desde então, com a minha família, os meus amigos, mas também constantemente
com duas pessoas que eu não conhecia, embora me parecessem muito familiares: um
rapaz de cabelos escuros, olhos azuis e sorriso traquina e uma rapariga, de
cabelos alourados e olhos azuis, ambos adolescentes. O rapaz não, mas a
rapariga é bastante parecida com uma foto do meu próprio pai enquanto criança.
O mesmo olhar. Aquele sorriso.
Certa noite, num desses sonhos, eu
brincava com o rapaz no jardim da minha casa, num monte de terra, rodeados por
carrinhos e tratores. Estávamos ambos sujos até às orelhas. Noutras vezes sonho
com a rapariga, quando ela era bebé e a peguei ao colo e depois já com ela em
adolescente, cúmplices uma da outra. Sentia-me ligada a eles. Ainda sinto, mas naquela
altura continuava sem entender muito bem os meus sonhos. Não foi apenas uma
vez, acontecia-me cerca de duas ou três vezes por mês, sonhos aleatórios, mas
sempre com essas pessoas. Contudo, hoje sei que não eram apenas simples sonhos,
sinto que são memórias embora não entendesse que memórias poderiam ser essas. Era
impossível, ou assim eu julgava.
Hoje já não acredito no impossível. Existe
muito mais para além daquilo que podemos ver e sentir. Cada um acredita no que
quiser, mas quanto a mim, passei por coisas que me mostraram que, sem dúvida,
tinha um anjo-da-guarda sempre de plantão, tendo em conta tudo o que já tive de
ultrapassar.
Ter um anjo-da-guarda não me torna
indestrutível, mas dá-me força e esperança. Acreditar que tenho alguém sempre
ao meu lado mesmo quando me sinto tão sozinha faz-me acreditar, dá-me confiança
em mim própria. Eu não tenho apenas um anjo-da-guarda, tenho dois. O meu
querido avô, que o cancro levou há mais de uma década, partindo-me o coração, e
a minha irmãzinha.
Sempre me senti acompanhada por ele, mas
nunca por ela. Talvez não tivesse a mente aberta a esse ponto. Hoje tenho. Hoje
sei que não me abandona onde quer que eu vá, onde quer que a vida me leve ela
vai lá estar, dentro do meu coração, no meu pensamento… sempre. Se eu fechar os
olhos consigo vê-la, consigo imaginar como seria ela e como seria a nossa vida
de irmãs. Se me concentrar, consigo senti-la e nesses momentos acredito que nada,
mesmo nada, é impossível. Basta deixarmos o nosso coração aberto.
Mas voltando um pouco atrás… quando
acordava desses sonhos estranhos que me incomodavam de vez em quando, perguntava-me
o que significariam. Tinha a certeza que não os conhecia, ainda assim sempre
senti uma afinidade… um carinho tão grande por eles, como se fossem meus
irmãos. Mas eu não tenho irmãos. Infelizmente, sou filha única.
Não foi por falta de birras a pedir um
irmão ou irmã nem que fosse da loja dos trezentos ou de barro, – pedidos de uma
criança ingénua, vai-se lá entender! – nem por falta de tentativas dos meus
pais. Eles conseguiram, apenas correu mal.
Há 19 anos eu não entendia, mas hoje
entendo que poderia ter corrido ainda pior. Naquela tarde podia não só ter
perdido a minha irmã ou irmão (na altura a minha mãe não quis saber o sexo do
bebé), podia também ter perdido a minha mãe. A minha mãezinha.
Lembram-se de vos dizer que me achava
azarada antes de entrar para o bloco operatório? Passaram-se seis anos e
aprendi a encarar a minha vida como nunca antes tinha feito. Hoje sinto-me
sortuda, abençoada. E isso começa nos pais que tenho e pela gratidão que sinto
em relação a eles por tudo o que a nossa família já viveu, já sofreu. Por tudo
o que eu própria já tive de lutar e de vencer.
Se não fosse por eles, se não fosse com o
apoio que me dão, com certeza cairia na primeira rasteira que a vida me
pregasse.
Mas eu aprendi a ser forte. Aprendi que
sou capaz de tudo o que eu quiser, basta querer e lutar por isso. Lutar muito.
Outra coisa que aprendi foi que a vida não nos
dá nada de mão beijada, mas também nos pode recompensar se fizermos por
merecer, tal como também pode ser injusta quando lhe apetece.
A vida ensinou-me muito e ensinou-me ainda
mais a escutar todos os sinais que nos são dados, mesmo que não os percebamos
agora, mais tarde fará sentido. E fez sentido para mim quando eu menos
esperava.
Agora vou contar-vos a história da minha
mãe e da minha irmã.

Depois de tantos pedidos da minha parte
para os meus pais me darem um irmão ou uma irmã, eles começaram a tratar do
assunto e oito meses depois a minha mãe, Isabel, conseguiu engravidar.
Estava tudo planeado por ela; eu fazia
seis anos em maio e em setembro entraria para a escola primária, deixando a
minha mãe em casa a cuidar do bebé que nasceria em agosto. Estava tudo
controlado, ou assim eles julgavam.
No início da gravidez a minha mãe sofreu
de muitos enjoos, muitas idas ao hospital por estar constantemente a vomitar
até que numa dessas vezes, numa sexta-feira antes do Carnaval, ela ficou
internada alguns dias devido a ter febre e perdas de sangue.
Os dias passaram-se e a febre sem baixar
porque devido à gravidez não podia tomar muitos medicamentos para não
prejudicar o bebé, a única solução era tentarem baixar a febre com toalhas
molhadas. Nunca resultou realmente.
A febre provinha de uma infeção urinária e
renal, e como não podia tomar antibióticos foi piorando, piorando, até que
naquela tarde de quarta-feira após o Carnaval, no dia 16 de fevereiro de 1999, mesmo
à hora da visita da tarde, a minha mãe sentiu que tinha uma bolha a rebentar
dentro dela, sentiu-se toda molhada e pediu à minha avó que procurasse ajuda.
A enfermeira foi rápida, mandou todas as
pessoas saírem e depois de ver o que se passava chamou o médico com urgência.
Confirmou-se: tínhamos perdido o meu tão desejado irmão ou irmã.
Na altura nunca quisemos saber o sexo do
bebé, mas mais tarde soubemos que seria a nossa Susana. Mais uma menina para a
família, a minha irmãzinha que eu tanto tinha pedido e sonhado.
A três meses de fazer seis anos eu não
tinha noção do que estava a acontecer, não tenho memórias desses dias, nem me
lembro sequer de ver a minha mãe grávida, embora soubesse que estava. Sinto
que, na minha inocência infantil, bloqueei esses dias da minha memória. A única
recordação que tenho é daquele dia de Carnaval, em que, com um vestido amarelo
de princesa e coroa na cabeça, fui com o meu pai ver o desfile enquanto a minha
mãe estava no hospital, doente. Não me lembro que nesse dia a fui ver, tão-pouco.
Ela fala-me nisso, conta-me como foram
aqueles tempos, conta-me o que eu não recordo e mesmo assim nada na minha
memória ganha vida. Foi muito difícil para ela, para todos nós, mas só quando
cresci e soube a história tal como foi é que tive noção da gravidade do que
tinha acontecido naquela tarde de quarta-feira.
Perdemos a nossa Susana, mas foi por pouco
que não perdi a minha mãe também.
Como se não bastasse perder o seu bebé, apesar
de o seu organismo expulsar o feto por causa da febre, a placenta ficou toda
agarrada ao útero e horas depois tiveram que lhe fazer uma curetagem a sangue frio.
Custa-me saber o que ela sofreu, as dores que teve e custa ainda mais saber que
quase não sobreviveu. A minha mãe conta que apenas se lembra da enfermeira a
gritar para o médico “Cuidado com a tensão doutor, está muito próxima, cuidado…
cuidado” e apagou. Não sabe o que lhe fizeram depois, quando acordou já era de
madrugada e estava novamente no quarto.
Desde que acordou que nunca mais pregou
olho, apenas a pensar no bebé que tinha perdido.
Estava grávida de 14 semanas. Era um bebé
muito desejado por todos nós e foi um golpe duro de suportar. Os dias que se
seguiram foram horríveis, a minha mãe chorava muito às escondidas e dizia que
se Deus lhe tirou aquele bebé era porque não a achava boa mãe e foi esse o seu pensamento
durante muito tempo.
Não sabia ela que era a melhor mãe que
qualquer filho poderia ter, acima de tudo uma melhor amiga para as horas boas e
menos boas. Uma confidente.
E foi assim que deixei de pedir um irmão
ou irmã, mesmo de barro ou da loja dos trezentos. Na minha inocência de criança
só não queria ver a minha mãe sofrer novamente. Não a queria perder. Nunca.
Quando cresci entendi a gravidade do
assunto, mas nunca culpei a minha mãe pelo sucedido. Não foi culpa sua nem de
ninguém, apenas não era para ser.
Eu culpava Deus. Culpava-o porque
sentia-me sozinha, detestava brincar sozinha ou com amigos imaginários e por
isso pedia tanto um irmão, mas não era suposto a minha mãe sofrer tanto com os
meus pedidos. Culpei-o durante muitos anos, assim como presumo que ela o tenha
culpado. Hoje sou-lhe grata por ter poupado a vida da minha mãe. Sei que podia
ser bem pior, mas não estava na sua hora. Ele sabia que ela me era necessária,
que nos anos seguintes seria e ainda hoje é, o meu porto de abrigo, a minha
força, a minha supermãe e supermulher.
Como muitas vezes lhe digo; mãe, quando for grande quero ser como tu.
Sorte dos meus filhos se um dia eu for metade da mãe que tens sido para mim. E
sim, tu eras merecedora de ter mais um, dois ou três filhos, mas és ainda mais
merecedora de viver a tua vida com a tua positividade como só tu sabes, mesmo
que tudo esteja do avesso.
Agora
peço que perdoes, que te perdoes. Perdoa Deus, ele sabe o que faz, acredita.
Não te peço para esquecer, nunca esquecerás, mas peço-te que pegues nessa dor e
a transformes em algo bom, tal como a mana queria. Quero que a transformes em
esperança para quem precisa dela. Tu, melhor que ninguém, sabes o que é perder
um filho. Por isso, pega nessa mágoa e faz algo de bom com ela. Faz a Susana
ficar orgulhosa, ainda mais do que já é, certamente.
Esta
é a nossa história. De nós a três. E não acaba aqui, mãe. Só acaba quando
houver um ponto final, enquanto isso, serão apenas virgulas e mudanças de
página.

Mãe
Depois de perder o meu bebé, os dias que
se seguiram foram horríveis, chorei muito às escondidas, agarrada à primeira
roupinha que lhe tinha comprado. Ainda hoje guardo com muito amor aquele
fatinho de calça e casaco verde água e branco, nunca o irei dar a ninguém pelo
seu significado e pelas lágrimas que carrega.
Dizia muitas vezes que se Deus me tirou
aquele bebé é porque eu não era boa mãe e assim pensei durante muito tempo,
culpando-me pelo que tinha acontecido.
Foi difícil aceitar aquela decisão de
Deus, mas mais tarde pensei: e se o meu bebé tinha hipóteses de nascer malformado
e de vir a sofrer? Talvez Deus até tenha sido meu amigo ao ficar com aquele
anjinho para ele, talvez até precisasse.
E foi assim que com o passar dos anos me
fui conformando e aceitando aquela triste perda que jamais iria esquecer,
afinal, era o meu bebé, um bebé muito desejado por todos nós.
Aos poucos fui restaurando a minha fé em
Deus, até que há uns anos atrás, em 2015, para ser mais precisa, estava sozinha
em casa, andava nas minhas lides domésticas e ouvi uma voz que vinha do jardim
e me perguntou “Ó mãe… o que é aquilo?”. Eu respondi “O quê, filha?” e do nada
ocorreu-me que estava sozinha em casa, o meu marido e a minha filha já tinham
saído para trabalhar. Como seria possível ouvir aquela voz tão igual à da minha
filha quando tinha mais ou menos seis anos? O mesmo timbre, aquela expressão
traquina e despachada… a partir daquele momento fico a pensar se aquela voz que
agora me chama mãe quando me encontro sozinha será a voz do meu anjinho.
Acredito que sim e assim muitas vezes
sinto a presença dela, a presença da minha segunda filha, a Susana – era esse o
nome que lhe daríamos se fosse uma menina.
Se até então pensávamos que seria um
menino, o Pedro Miguel, como o meu marido queria, a partir daquele dia em que
ouvi aquela voz pela primeira vez, fiquei com a certeza que afinal era uma
menina. A minha menina.
Hoje em dia começa a ser mais fácil
aceitar, já não me culpo, afinal eu não tive culpa, estava muito doente,
aconteceu e aprendi a lidar com a situação à minha maneira e no seu devido
tempo. Quando ouço aquela voz, respondo-lhe sempre e agora sei que me vem ver e
dar força nos dias mais difíceis de suportar, sei que ela é um dos meus
anjinhos da guarda, sempre presente nas horas boas e nas horas menos boas.
Agora, aqui deixo uma mensagem para todas
as mães que de uma forma ou de outra perderam os seus filhos; não é fácil, mas não fiquem tristes, aceitem
e façam o vosso luto porque os nossos anjinhos estão bem e estão sempre
presentes, não fisicamente, mas espiritualmente, e se abrirem o coração e a
mente, conseguem senti-los, tenho a certeza. Tenham fé e acreditem em Deus, ele
escreve direito por linhas tortas.
Um
beijo do tamanho do mundo e um abraço bem reconfortante para todas as mães.

Eva
Depois de nunca mais falar sequer no
assunto quero um irmão aprendi, ainda
mais, a brincar sozinha com os meus tratores e camiões - nunca fui fã de
bonecas - pelos montes de terra da nossa quinta.
Sujava-me até às orelhas e aprendi a ser
feliz à minha maneira. Vantagem de ser criança, algum dia esquecemos, algum dia
tudo passa.
Mas antes de tudo passar, houve uma fase em
que me senti muito triste e deixada de parte. Todos os meus amigos tinham um
irmão ou uma irmã, e porque não eu? Contudo, nunca mais falei no assunto. Tinha
visto o sofrimento da minha mãe daquela vez e tinha-me bastado.
Então cresci, os anos passaram. Aos poucos
seguimos com as nossas vidas em frente, nunca esquecendo o bebé que tínhamos
perdido. Inicialmente tínhamos a certeza que seria um menino, um Pedro Miguel
como o meu pai queria, mas mais tarde por intervenção divina tivemos então a
certeza que não, seria mais uma menina para a família. Nesse dia chorei
agarrada à minha mãe. A nossa Susana.
A partir daí tudo começou a fazer sentido,
comecei a dar-lhe um rosto nos meus pensamentos, curiosamente acabava sempre
por ser idêntica à rapariga que assaltava os meus sonhos desde há alguns anos
atrás, desde que eu fora submetida a uma cirurgia difícil para corrigir um
problema de nascença. Não sabia o que tinha acontecido no tempo em que estive
anestesiada, mas mais tarde fui percebendo, aos poucos, e senti que nunca mais
iria estar sozinha. Tal como naquele dia à porta do bloco operatório, eu senti
que tinha alguém ali ao meu lado, a sussurrar-me Está tudo bem. Vai correr tudo bem. Relaxa.
Esses mesmos sonhos que eu tive durante
tanto tempo, mais tarde começaram a ganhar forma e a fazer sentido na minha
vida real. Eu não tinha nenhum Vicente na minha vida naquela altura, nem tão
pouco conhecia ninguém com esse nome, mas nos meus sonhos, havia sempre um rapaz
chamado Vicente. Sentia-me ligada a ele de alguma forma que ainda me era
desconhecida e por alguma razão aquela rapariga que agora sei que era a minha
irmã não lhe achava muita graça.
A minha cabeça estava um turbilhão pegado,
não fazia ideia do que pensar sobre os meus sonhos, chegando ao ponto de ter
ataques de pânico por não saber o que era real ou não.
Um ano depois conheci o meu primeiro amor,
aquele amor arrebatador que nos faz esquecer o mundo e a razão, o meu Vicente. Tinha
uns olhos azuis que me faziam perder a noção do espaço e do tempo, achei que
fosse amor para toda a vida, era realmente o meu primeiro amor, o meu verdadeiro
amor ou assim eu achava. Tornou-se mais que meu namorado, era o meu melhor
amigo, quem me conhecia melhor que ninguém e com quem voltei a partilhar os
meus problemas, dúvidas e receios depois de ter perdido a amizade da Filipa
anos antes. Na verdade, ele era tudo para mim. Tudo começava e acabava nele.
Amei-o mesmo de verdade, com cada gota do meu sangue, com cada célula do meu
corpo, com todo o meu coração.
Conhecemo-nos de passagem no liceu, poucos
meses antes de eu terminar o 12º ano e fechar aquele ciclo interminável que foi
para mim o ensino secundário e tudo o que isso trouxe consigo. Foram anos… complicados.
Estava ansiosa por fechar aquela porta e sair para o mundo real.
Naquele início de manhã chuvoso e
friorento trocámos um “Bom dia” envergonhado junto do nosso amigo em comum.
Na altura não significou grande coisa,
pelo menos para mim. Via-o de vez em quando nos intervalos das aulas, a
deambular pelo liceu com os amigos dele, achei-lhe piada e se nos tivéssemos
conhecido melhor talvez se tivesse tornado um bom amigo. Tal não aconteceu.
Quase um ano depois conheci-o realmente bem.
Éramos os dois tímidos e não sabendo bem
como nem por que caminhos, acabámos por nos apaixonar. Foi o meu primeiro amor
de verdade. Aos meus olhos tudo era perfeito até que deixou de ser.
Poucos meses depois de começarmos a
namorar começaram a surgir os problemas, alguns desnecessários causados pela
sua família, mas eu era ingénua e estava apaixonada. Se tivesse prestado
atenção talvez tudo tivesse ficado por ali, mas não ficou. Eu amava-o demais e
acreditava cegamente que ia correr tudo bem, iríamos ficar juntos até sermos
velhinhos. Devo dizer que mesmo assim, ao longo de todo o tempo que estivemos
juntos, eu fui realmente feliz. Estava apaixonada por um rapaz que eu achava
lindo e achava que tal como ele era o meu mundo, eu seria também o dele. A meu
ver, acho que não chegava a ser tudo isso para ele. Nunca senti realmente que o
era.
E foi assim que nos anos seguintes muitas
coisas aconteceram entre nós e por algum motivo as coisas não deram certo.
Apenas não tinha de ser. Acontece. Culpa dos dois ou de ninguém, apenas não deu
mais. Sofri muito com isso, afinal tinha entregado o meu coração e todo o meu
amor a alguém e no fim de contas não deu em nada. Foi difícil, creio que para
ele também tenha sido, mas no final, sei que terminar foi a melhor coisa que
podia ter feito pelo bem de ambos.
Nesse espaço de tempo, quatro anos para ser
mais precisa, em que o conheci e em que fomos cada um para o seu lado, os
sonhos tornaram-se mais intensos e incomodativos. Aquela rapariga continuava a
dizer-me que não era homem para mim, que algo melhor estava à minha espera e eu
continuava sem entender patavina do que se passava dentro da minha cabeça.
Mais tarde fez sentido, claro que fez!
Quando eu menos esperava. Aí já tinha mais ou menos noção do que estava a
acontecer comigo e com os meus sonhos, que comecei a entender como memórias
reprimidas do tempo em que estive desacordada na minha cirurgia, anos antes.
Era a única coisa que fazia sentido, a única explicação mais próxima do que se
define por lógico.
Então, algum tempo depois de ter terminado
a minha relação com o Vicente, aconteceu… Não foi numa biblioteca como a minha
irmã previra, mas foi à porta de uma pizzaria. E naquele segundo o meu coração
parou e caiu-me aos pés. Não sabia o que fazer, o que dizer. Ele estava ali, era ele.
E a partir daquele momento seria para
sempre ele, para o resto da vida. Não
era um príncipe encantado, mas definitivamente não era um sapo! Era tão lindo.
Tão… perfeito e simples.
Algum tempo depois descobri que ele era
tudo o que eu sempre quis, era alguém especial para mim, alguém com quem eu
gostava de estar e de conversar.
Eu não estava na melhor fase da minha vida,
mas com ele por perto era tudo muito melhor e foi assim que sem dar por isso me
apaixonei novamente e desta vez era algo diferente da primeira vez.
Nem sempre o primeiro amor é o último e no
meu caso, foi no meu segundo amor que encontrei tudo o que precisava e desejava
para o meu presente e para o meu futuro.
Quando me dei conta do que estava a
acontecer comigo é claro que tive medo, é claro que recuei mais depressa do que
avancei. Tinha medo de me magoar novamente, tinha medo de o magoar. Não estava,
de todo, preparada para uma nova relação, tendo sofrido tanto com a primeira.
Achava que precisava de mais tempo sozinha, sem me preocupar com alguém, sem me
dedicar a alguém… mas não mandamos no coração, é ele que manda em nós e com o
tempo e muita paciência por parte do Bernardo lá fui baixando as minhas
defesas, devagarinho, devagarinho até que caí em mim e percebi que não fazia
sentido nenhum negar nem esconder aquilo que sentia por ele ou fugir do que ele
sentia por mim. Foi aí que começou a fase mais bonita da minha vida até hoje.
Já lá vai quase um ano.
Ainda me lembro como se fosse ontem de
como tudo começou. O nosso almoço na pizzaria, o passeio dessa tarde, a sessão
de cinema… quando dei por mim já eram horas de regressar a casa, mas eu não
queria ir. Desejava continuar na sua companhia, a conversar com ele sobre tudo
e mais alguma coisa. Havia algo entre nós desde o início, hoje sei-o. Foi
mágico desde o primeiro momento.
Ainda me arrepio só de pensar na primeira
vez que me pegou na mão. A minha, fria como sempre, assustou-se quando a dele,
quente e aconchegante, pegou nela. Toda eu fui percorrida por um arrepio. Não
esperava essa atitude da parte dele, fui apanhada totalmente de surpresa, mas,
admito, gostei tanto, soube tão bem. E assim andámos o resto da tarde.
Já nos conhecíamos há alguns dias, já
tínhamos estado juntos algumas vezes, mas aquela tarde foi o ponto de partida
para o que viria depois. Nada mais interessava. Nada ao nosso redor era
importante. Naquele momento criámos a nossa bolha, o nosso pequeno mundo à
parte do mundo real.
Aos poucos fomos construindo a nossa
relação com base no que nos unia e rapidamente adotei a família dele como sendo
também minha. As nossas famílias juntas formavam uma grande e feliz família,
tal como eu sempre sonhara.
Pela primeira vez na vida adorei os sogros que tinha e sentia-me bem em casa
do meu namorado, coisa que anteriormente não acontecia. Comecei a ser feliz, realmente
feliz.
Claro que nem sempre corre bem, nem sempre
estamos de acordo, nem sempre nos conseguimos aturar, mas o que importa é que
no final acabamos sempre por nos entendermos de uma forma ou outra. Admito,
amo-o como nunca amei ninguém e se pudesse voltar atrás fazia tudo de novo, uma
e outra vez. Sem alterar nada, nem mesmo quando as minhas inseguranças falam
mais alto e é ele quem acaba por sofrer com o meu mau feitio e dúvidas. Mesmo
assim acredito em nós, até ao fim.
Agora sei a que se referia a minha
irmã quando me dizia nos meus sonhos que algo melhor estava à minha espera.
Creio que tinha de fechar aquele capítulo da minha vida para poder começar um
ainda melhor. Aprendi a perdoar o passado, os erros que se cometeram, as mágoas
que guardava dentro de mim, aprendi a perdoar e hoje sou feliz, mais do que
alguma vez fui. Sinto-me completa. Sinto que estou no lugar onde pertenço.
Apenas me faltava um pequeno pedaço para
tudo ficar realmente completo. A Filipa, aquela amizade que eu deixara que o
tempo levasse e os nossos erros estragassem. Contudo, como sempre, algo estava
por vir.

Nesse meio tempo descobri então a minha
veia de escritora, ganhando coragem para levar esse sonho mais além, com o
apoio do Bernardo, dos meus pais e de uma amiga que me incentivou a seguir o
rumo que me trouxe até aqui.
Depois da cirurgia há seis anos atrás, eu
tinha decidido escrever um livro. Pouco tempo depois comecei a trabalhar nele,
chamava-se “Nunca desistas de mim” e era dedicado à minha mãe, contudo nunca o
consegui terminar. Sem ideias para o continuar decidi começar um novo projeto.
De “Deixa-me Amar-te” passou para “Enquanto me Quiseres” e ficou-se pelo “Tudo
o que Sempre Quis”. Contava a história de cinco jovens que se tinham perdido na
estrada da vida e o destino juntara-os numa vila à beira mar, cruzando os seus
caminhos e ajudando-os a resolver os seus fantasmas e erros do passado. Uma
história sobre os nossos erros, as consequências e as segundas oportunidades,
mas acima de tudo uma história de esperança e força.
Bom, a história em si era ficção, embora
inspirada nalguns locais reais, em pessoas reais e com muitas coincidências que
só agora eu entendi, mas optei por escolher um título que me dizia tanto,
afinal, escrever um livro era tudo o que eu sempre quisera desde que era
adolescente e dava os meus pequenos textos e histórias soltas à Filipa para ela
ler. Ofereci-lhe inclusive um caderno piroso cor-de-rosa choque com uma abelha
no centro da capa e foi nesse caderno que depositei uma cópia dos meus textos e
histórias. Foi um presente que lhe dei há muitos, muitos anos e não sabia se
ainda o guardava.
Continuando, levei dois anos a terminar
aquele que foi o meu primeiro livro, tive vários meses sem conseguir escrever e
quando achava que seria apenas mais um projeto deitado pelo cano abaixo, a
inspiração surgiu e voltei a escrever como se a minha vida dependesse disso. Na
altura estava com o Vicente e foi ele o primeiro a ler o livro conforme o ia
escrevendo.
Quando o terminei tentei publicá-lo, mas
sem sucesso. Depois de receber tantos nãos
acabei por desistir dessa ideia maluca até que no final de 2017, em conversa
com uma amiga, ela motivou-me a voltar a tentar publicar. Os meus pais e o
Bernardo apoiaram-me nisso.
Tinham-se passado alguns anos desde que o
terminara, avizinhava-se muito trabalho pela frente, mas lá consegui. Realizei
o meu sonho e ainda não acredito nisso. Por vezes apetece-me desistir, acabar
com essa ideia maluca, com esse sonho de adolescente que depositava os seus
desejos e receios num caderno de capa preta que escondia do resto do mundo. Mas
há sempre algo ou alguém que não me deixa desistir, abandonar tudo por aqui.
Creio que é pela mensagem de esperança e reflexão que o livro tem por trás,
mensagem essa que eu gostava que chegasse às pessoas, as fizesse pensar sobre a
vida que levam, sobre os erros que têm cometido, mas acima de tudo que
pensassem sobre a sua família, afinal a mensagem principal é mesmo “pela nossa
família vamos ao fim do mundo”.
E aquelas personagens, o Salvador, a Sara,
a Helena, o Lucas e o Martim inspiram-me e fazem com que deseje que fossem
pessoas reais. Todos eles têm tantos segredos, tantos erros cometidos e no
fundo, são tão apaixonados pela vida, pela família, pelos amigos… por vezes
perdemo-nos no caminho na vida, mas há esperança, podemos sempre encontrar o
caminho de volta. Basta acreditar e lutar muito.
Foi assim que realizei o meu sonho de ser
escritora, com o apoio incansável dos meus pais e do meu namorado, que tantas
vezes troquei pela escrita durante horas e nunca reclamou por isso. Devo-lhes
tanto. Devo tanto a ele por todo o amor e paciência. Nem uma vida cheia de amor
pagará isso, mesmo assim estou disposta a passar o resto dos meus dias com ele.
Tinha escrito um livro, o meu livro.
Estava feliz e agora dava por mim a desejar poder dizer à Filipa que ela tinha
razão quando dizia que um dia eu ia escrever livros.
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